Museu Nacional

Busca por tesouros perdidos tem início promissor

Patrícia Veiga

Edição 15 / Novembro / Dezembro de 2018
Foto colorida de peças raras encontradas pelo trabalho da equipe de resgate, do Museu Nacional, iniciado após o escoramento da estrutura do Palácio.
Peças raras encontradas pelo trabalho da equipe de resgate, iniciado após o escoramento da estrutura do Palácio. Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

O núcleo de resgate do Museu Nacional (MN), coordenado por Cláudia Carvalho, professora do Departamento de Arqueologia, e composto por dez pesquisadores, 47 servidores e três colaboradores, até o dia 4/12 já havia retirado das cinzas 1,5 mil itens, entre peças de coleções, equipamentos, objetos pessoais e fragmentos arquitetônicos. O material resgatado faz parte dos acervos da Arqueologia, Etnologia e Mineralogia. Além dessas áreas, também tiveram perdas profundas a Antropologia, a Paleontologia, a Geologia, a Entomologia, a Aracnologia e a Malacologia.

Foto colorida de peças arqueológicas retiradas das cinzas após o incêndio no Museu Nacional.
Mais de 1,5 mil itens já foram retirados das cinzas. Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

Em anúncio no dia 10/12, o Museu Nacional deu detalhes do que foi localizado: duas bonecas carajás registradas como Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan); uma tigela tupi-guarani; urna funerária marajoara; pontas de flechas indígenas – coletadas pela Comissão Rondon, no início do século XX; uma tigela etnográfica; dois zoolitos da Ilha de Santana (Santa Catarina), um em forma de pássaro e outro em forma de peixe; um machado semilunar (Maranhão); um peso de rede da coleção tombada Balbino de Freitas, pertencente à região de Torres (Rio Grande do Sul); um quartzo rosa; um vaso antropomorfo peruano – adquirido por D. Pedro II; uma ametista; um citrino e um cristal de turmalina negra. Em 19/10, Cláudia Carvalho e o diretor do MN, Alexander Kellner, informaram também o resgate do crânio de Luzia, fóssil mais antigo encontrado no Brasil, com data de 11,5 mil anos.

 “O trabalho de resgate está apenas no começo”

A recuperação desse material foi iniciada somente depois do escoramento da estrutura do Palácio, feito no final de setembro, o que garantiu a segurança da equipe de resgate. Um sistema conjunto foi estabelecido entre o Museu Nacional, o governo da Alemanha e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a fim de criar uma rotina permanente de atuação na área. A próxima etapa consistirá em instalar suportes para a cobertura do antigo prédio. “O trabalho efetivo de resgate está apenas começando”, declarou o diretor do Museu em coletiva realizada no dia 10/12.

Foto colorida do professor Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional.
Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional. Foto: Raphael Pizzino (Coordcom / UFRJ)

Além dessa comissão, outras frentes de trabalho atuam no processo de reconstrução, na expectativa do porvir. “Todos estão trabalhando diariamente, visando à reconstrução do espaço físico e estrutura de pesquisa, acervos etc. Os professores, técnicos e estudantes desalojados pela destruição de seus laboratórios e gabinetes de pesquisa foram acolhidos por colegas de outros departamentos não atingidos pelo incêndio. As atividades de ensino e pesquisa seguem seu curso, os auxílios emergenciais necessários aos alunos de pós-graduação estão sendo buscados junto às agências de fomento; as atividades e cursos de extensão junto às escolas foram reformatados para novos modelos. Equipes trabalham no resgate de importantes peças do acervo do Palácio; os diretores projetam e buscam os recursos para recuperar as condições físicas de desenvolvimento das atividades de pesquisa e extensão. Enfim, estão todos imbuídos do espírito de seguir adiante, sabendo que coube a esta geração de funcionários do Museu a missão de reconstruir esta casa e preparar o Museu para o nosso futuro”, resumiu Alexandre Pimenta, professor do Departamento de Invertebrados. “Essa vontade de que as coisas deem certo tem nos ajudado muito”, complementou Antônio Carlos Fernandes, professor aposentado do Departamento de Geologia e Paleontologia (DGP).

Foto colorida do interior do Museu Nacional após o incêndio. A busca pelo acervo nas cinzas já rendeu bons resultados.
O garimpo de peças entre os escombros do Museu Nacional já rendeu bons resultados. Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

Tecnologia reduz dano com perdas em bibliotecas

Por outro lado, na Biblioteca Francisca Keller, do Departamento de Antropologia, 34.519 títulos, entre livros, folhetos, dissertações, teses, periódicos e materiais especiais (CDs, DVDs, fitas etc.), foram perdidos. Sem contar as bibliotecas pessoais dos docentes, como a de Luiz Fernando Dias Duarte, professor do Departamento de Antropologia que tinha cerca de 6 mil títulos guardados no Palácio Imperial. “Isso faz muita falta e vamos sentindo conforme o tempo passa. Você vai escrever um artigo, procura no indexador, vê que não existe mais e se pergunta: onde vou conseguir?”, indagou.

Para reduzir os danos, os pesquisadores da área também contaram com a tecnologia de informação. Um procedimento padrão no departamento, feito pela sua biblioteca, era disponibilizar aos alunos, em formato digital, os arquivos dos textos trabalhados nas disciplinas, a cada semestre. Ainda assim, duas pesquisas que estavam sendo feitas sobre coleções do Museu, uma dissertação e um trabalho de pós-doutorado, tiveram de ser reformuladas.

“Para o tipo de trabalho que os antropólogos sociais fazem, muita coisa conseguimos buscar pela internet. Hoje existem acervos bibliográficos online muito preciosos, muito alvissareiros para nós, o que é completamente diferente para os geólogos, biólogos, que dependem de matéria-prima, ou mesmo para uma parte importante da Antropologia, que é a Etnologia e os estudos de cultura material”, ponderou Duarte.

No setor de Etnologia, onde artefatos raros e de sociedades já extintas se queimaram, o trabalho dependerá de novas trocas, sobretudo, com as populações indígenas brasileiras, que hoje ocupam o Museu Nacional, como discentes do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) e do setor de Linguística, e já dialogavam com as coleções. “A perda das coleções etnológicas é irreparável. Mas os povos indígenas já nos deram uma série de sinais de que estão dispostos a trabalhar construindo novos artefatos, novas coleções para os povos do Brasil de hoje. Isso nos dá ânimo para trabalhar”, defendeu Antônio Carlos de Souza Lima, também do Departamento de Antropologia.

Na visão do docente, há perspectivas positivas pela frente, o problema são as incertezas da administração pública. “Para o PPGAS, nós temos ofertas de basicamente recompor toda a biblioteca. Mas não temos espaço, não temos assegurados recursos para trazer esses novos títulos, os mesmos problemas de sempre. E nós enfrentamos uma conjuntura política de total instabilidade, não sabemos o que vai acontecer. Vontade, contatos, suporte internacional de todos os setores nós temos. O problema vai ser, como sempre, nossas elites dirigentes, que têm se mostrado historicamente ignorantes.”

(Com informações da Assessoria de Imprensa do Museu Nacional)