Educação

Complexo de Formação de Professores valoriza educação básica na UFRJ

Patrícia Veiga

Edição 16 / Fevereiro / Março de 2019
Foto colorida de docente em exercício durante aula para estudantes do Colégio de Aplicação da UFRJ.
Docente em exercício durante aula para estudantes do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ. Foto: Ana Marina Coutinho (Coordcom / UFRJ)

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) possui 32 licenciaturas, por onde passam, todos os anos, cerca de 20% dos estudantes de graduação. Nesses cursos, bem como na pós-graduação e em outros âmbitos da instituição, são realizadas inúmeras atividades de ensino, pesquisa e extensão envolvendo o cotidiano escolar.

Ainda assim, “a UFRJ não é reconhecida, nem interna nem externamente, pelo seu trabalho na formação de professores”. Essa é a constatação de António Nóvoa, docente da Universidade de Lisboa, no início de um relatório de 30 páginas escrito em 2017. A convite da Faculdade de Educação (FE), entre abril e novembro daquele ano, ele acompanhou debates e sessões de trabalho para a construção de uma política institucional voltada à educação básica e à valorização da profissão docente.

No documento, ele destaca a “pouca atenção” dada à área no Plano Diretor UFRJ 2020 e chama a instituição a cumprir de forma ampliada uma de suas funções sociais: “Espera-se da UFRJ, a mais importante universidade da América do Sul, um discurso e uma prática de compromisso com a educação, nomeadamente no domínio que está mais imediatamente ao seu alcance, a formação de professores”. É nesse texto, também, que o autor delineia as bases do Complexo de Formação de Professores (CFP).

Formação de professores é desejo antigo da UFRJ

Aprovado por unanimidade na última sessão de 2018 do Conselho Universitário (Consuni), o CFP é resultado da presença de Nóvoa na UFRJ, mas, além disso, de um desejo que pairava na comunidade universitária há décadas. “Nesses meus 40 anos de Universidade, vejo que fizemos vários movimentos, junto com outros parceiros, de tentar construir algo parecido com o Complexo. Era um sonho antigo ter uma articulação mais orgânica, mais intencional, mais duradoura entre os diversos lugares, tempos e sujeitos que fazem a educação como um todo”, relata Marcelo Macedo Correia e Castro, professor da FE e atualmente decano do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH).

Foto colorida de Marcelo Macedo Correia e Castro, professor da Faculdade de Educação e atualmente decano do Centro de Filosofia e Ciências Humanas.
Marcelo Macedo Correia e Castro, professor da Faculdade de Educação (FE) e atualmente decano do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH). Foto: Diogo Vasconcelos (Coordcom / UFRJ)

“Historicamente, esse campo é atravessado por disputas que fracionaram teorias e práticas. As teorias e as práticas estão sempre anguladas por um espaço-tempo, por um determinado conjunto de sujeitos, quando, para uma integração, deveriam estar convergentes”, complementa.

A vontade de aproximar teorias e práticas, como destaca Castro, e de levar a educação básica para a centralidade da vida institucional fez com que a UFRJ passasse os últimos dois anos dialogando com sua comunidade, fazendo “costuras” dentro e fora da instituição, revendo hábitos e conceitos, buscando novos parceiros.

“Temos feito reuniões como nunca. São construções quase artesanais, mas necessárias”, descreve Carmen Teresa Gabriel, diretora da FE e atualmente coordenadora do Comitê Permanente do CFP. Segundo ela, conversar tem sido um diferencial nessa tentativa de unir forças outrora dispersas.

“A alma do Complexo é colocar em diálogo todos que participam e querem participar do processo de formação de professores. Temos muitas experiências exitosas e também muitos pesquisadores de renome que não necessariamente são formadores de professores, mas têm uma sensibilidade. Por outro lado, a escola é lócus de formação, de produção de conhecimento, e também tem a contribuir com esse processo”, defende a docente.

Construindo uma “casa comum”

O CFP foi instituído como um novo espaço na estrutura média da Universidade, conforme as Resoluções 19 e 20/2018. Esse espaço fica responsável por sistematizar e desenvolver iniciativas voltadas à formação inicial e continuada de profissionais da educação básica. Para tanto, trabalhará em articulação com centros e unidades da UFRJ, com escolas das redes municipal, estadual e federal, com outras Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes).

António Nóvoa o definiu, em seu relatório, como uma “casa comum” ou “terceiro espaço”. “Não é um espaço que exista. Não está somente na universidade ou nas escolas. É um lugar que abarca, está entre os demais e os reflete”, apresenta Joaquim Fernando Mendes da Silva, professor do Instituto de Química (IQ), que acompanha os debates do Complexo desde 2017.

Foto colorida de Cristina Miranda, diretora do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ
Cristina Miranda, diretora do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ. Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom/UFRJ)

Um desses espaços que compõem a “casa comum” é o Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ, que, juntamente com a Escola de Educação Infantil (EEI), atua na formação inicial e se constitui como um campo de estágio e de realização de projetos de pesquisa e extensão para as licenciaturas.

Para as professoras Cristina Miranda e Graça Reis, da Direção-Geral, e Isabel Lima e Marilane Abreu, da Direção Adjunta de Licenciatura, Pesquisa e Extensão do CAp, que responderam juntas às nossas questões, o que possibilitará a construção, de fato, desse “terceiro espaço” será a troca de saberes. “Os produzidos nas Ifes e os produzidos nas salas de aulas da educação básica da rede pública. A formação docente deve ser colaborativa e compartilhada por todos os sujeitos envolvidos, comunidade universitária, escolas da rede pública e movimentos sociais”, defendem.

As bases dessa casa, conforme consta em um termo de referência que fundamenta o CFP, são três: pluralidade, integração e horizontalidade. A primeira diz respeito aos muitos espaços e sujeitos envolvidos, cada um com sua história, seu modo de ensinar, seu acúmulo teórico e prático. A segunda faz referência às ações de formação, tanto as que já existem nesses espaços como as que podem vir a acontecer de forma convergente. A terceira envolve a partilha, de modo igualitário, de saberes e responsabilidades.

Nessa última premissa, a horizontalidade, um desafio está posto, conforme aponta Carmen Gabriel, uma vez que há uma concepção cristalizada de que a universidade se situa no topo do sistema educacional e as escolas, por sua vez, na base – como se o fluxo formador tivesse uma direção linear e única. “A universidade, tradicionalmente, olha para a escola de forma dicotômica e hierarquizada. O Complexo precisa romper com isso”, sustenta.

Foto colorida de Carmen Teresa Gabriel, diretora da Faculdade de Educação (FE) e coordenadora do Comitê Permanente do Complexo de Formação de Professores.
Carmen Teresa Gabriel, diretora da Faculdade de Educação (FE) e coordenadora do Comitê Permanente do Complexo de Formação de Professores (CFP). Foto: Diogo Vasconcelos (Coordcom / UFRJ)

Para superar essa visão, é preciso ouvir as escolas e, na universidade, redimensionar processos. “É importante que o contato dos estudantes de licenciatura com a educação básica seja promovido desde o início de sua vida acadêmica na universidade, e não somente no último ano, no momento do estágio supervisionado. A vivência dos estudantes nas escolas é tão importante quanto as demais atividades de formação – o envolvimento em diferentes disciplinas, cursos, projetos e pesquisas”, escrevem Miranda, Reis, Lima e Abreu, professoras do CAp.

A implantação do Complexo de Formação de Professores (CFP) será, em si, um desafio. Isso tem demandado do Comitê Permanente – formado por representantes de todas as instituições envolvidas na política – reunir informações, sistematizar ações e propor outros modos de organização. “A ideia não é inventar projetos específicos para o Complexo, mas sim aproveitar e potencializar o que já é feito”, afirma Carmen Gabriel, diretora da Faculdade de Educação (FE) e coordenadora do Comitê.

Uma das ações que começa a se desenhar é a produção de uma cartografia das atividades realizadas pela UFRJ. A ideia é disponibilizar, no futuro site do Complexo, informações sobre disciplinas, cursos, projetos de pesquisa e iniciativas de extensão. Assim, cada pessoa interessada poderá visualizar a melhor forma de se integrar ao CFP, definir seu percurso formativo e propor novos entrelaçamentos. “Uma das nossas preocupações é fazer com que os projetos tenham uma unidade institucional”, defende Joaquim Silva, professor do Instituto de Química (IQ) e um dos responsáveis pela cartografia.

Também está em andamento a formação do Núcleo de Planejamento Permanente das Licenciaturas (NPPL), responsável por acompanhar os cursos da UFRJ, perceber suas diferentes perspectivas, trocar experiências e discutir possíveis reformas curriculares. “Esse Núcleo vem para repensar e reconfigurar o contexto das licenciaturas na UFRJ. Porém, não tirará a autonomia das unidades”, explica a coordenadora do Comitê Permanente.

Paralelamente aos ajustes internos, está em curso um projeto piloto envolvendo a UFRJ e seis escolas da rede municipal. Tal experiência está sendo construída a partir da realização corriqueira de reuniões, em que cada uma dessas unidades expõe suas necessidades e apresenta suas propostas de integração. A parceria tem sido estabelecida a partir da Escola de Formação do Professor Carioca Paulo Freire, uma das entusiastas do CFP desde o início dos debates.

De modo geral, as perspectivas são boas e os docentes envolvidos com o CFP acreditam que as mudanças podem ser significativas, tanto para a UFRJ como para a sociedade. “Se conseguirmos avançar, melhoraremos a formação do professor e também a qualidade das relações em sala de aula, garantindo o protagonismo que já está lá”, opina o decano do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), Marcelo Castro. “Queremos ter orgulho de formar professores da mesma forma que temos orgulho de formar médicos e engenheiros”, defende Carmen Gabriel.