Entrevista

“A cor da enfermagem é negra”, diz Luzia Araújo

Tassia Menezes

Edição 20 / Novembro / Dezembro de 2019
Imagem ilustrativa da matéria. Em primeiro plano, mulher negra com vestimenta de enfermeira está em um hospital e atende ao telefone. Ao fundo, desfocada, outra mulher com jaleco branco sorri enquanto trabalha
Foto: Raphael Pizzino (Coordcom/UFRJ)

Em 1985, quando entrou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) pela primeira vez para cursar a graduação em Enfermagem e Obstetrícia, a jovem Luzia da Conceição de Araújo Marques não imaginava que, 34 anos depois, se tornaria a primeira pró-reitora negra da maior universidade federal do Brasil. Hoje, pró-reitora de Pessoal, servidora técnico-administrativa na UFRJ e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ela enxerga melhor as engrenagens do racismo que retardaram a chegada da representatividade racial em vários espaços dos quais faz parte. Com uma história de exceção, Luzia seguiu em frente ouvindo a voz de seu pai que, enquanto a incentivava, não sabia aonde sua filha poderia chegar.

Como é, apenas em 2019, ser a primeira pró-reitora da UFRJ?

É um ano representativo. Hoje a gente tem uma grande luta de classes: o negro toma consciência de todos os seus direitos, das desigualdades que tem sofrido, e passa a lutar por esses direitos. No momento em que passa a lutar, ele pressiona a sociedade. E a sociedade inicia a tomada de consciência, percebendo a necessidade de o negro ocupar os espaços de poder decisório das instituições, incluindo a UFRJ. Durante toda a minha trajetória nesta instituição — como aluna da Universidade em 1985 e, posteriormente, como servidora, em 1989 — nunca tivemos, desde a fundação da Divisão de Enfermagem, em 1978, um enfermeiro diretor negro. Hoje eu [estou] como enfermeira, negra, como pró-reitora de Gestão de Pessoas aqui na UFRJ.

Qual foi a sua trajetória no serviço público?

Eu nasci na favela de Vigário Geral, mas o meu pai — ainda que tivesse a terceira série do ensino primário, que hoje é o ensino fundamental incompleto — primava pela educação de seus filhos e queria que fôssemos alguém. Era o que ele dizia: “Meus filhos serão alguém”. Então ele apostava muitas fichas em nós. Dizia: “Conceição, você vai estudar. Conceição, você vai estudar”. Aí eu peguei essa fala. Foi o meu caminho: tracei essa meta e só ouvia a voz do meu pai: “Conceição, você vai estudar”. Então a Conceição praticamente não viveu; a Conceição estudou. A Conceição iniciou a sua vida numa escola municipal e depois foi para uma escola estadual no segundo grau. Foi para a universidade pública porque não havia outra forma: o pai era feirante; a mãe, costureira. Não me restava outra forma senão estar e permanecer no ensino público. Só assim consegui chegar até aqui. Concluída a Universidade, mirei no mesmo objetivo. Eu mantenho o foco no público e em tudo aquilo que eu sou, porque eu estava no público.

Luzia em plano médio. Aos fundos, um jardim
Luzia Araújo atualmente está à frente da Pró-Reitoria de Pessoal da UFRJ. Foto: Raphael Pizzino (Coordcom/UFRJ)

Você percebe experiências de racismo nos seus espaços de trabalho?

A cor da enfermagem é negra, mas, se você observar, a enfermagem é composta por três categorias: o enfermeiro, o técnico e o auxiliar. Em nível superior, o enfermeiro não é negro, mas técnicos e auxiliares, sim. Então já começa daí. Eu não sou um grande grupo onde eu estou. Não é fácil, pois a discriminação existe. Eu sou docente na Uerj e isso aflige muito os alunos, assim como em qualquer outra universidade. E na enfermagem muito mais. Como a Uerj trabalha com a questão de cotas, eu tenho numa turma de enfermagem muitos negros, ao contrário de algum tempo atrás. Mas quando as pessoas passam, já dizem assim: “Ah, é a enfermagem! Olha a quantidade de negros na sala.” Então uma turma já é reconhecida como de enfermeiros porque tem em sua maioria a cor negra. Isso perturba muito os alunos.

Como lidar com o assédio moral na Universidade?

Iniciamos agora, em alusão ao mês do servidor, um grupo de atividades educativas e reflexivas acerca das relações positivas no ambiente de trabalho. É necessário que a gente possa trabalhar com essas relações porque o conflito é natural e vai existir, já que somos diferentes. É uma pluralidade de pessoas na Universidade e porque somos diferentes vivemos com conflito. Mas a gente precisa identificar em que momento de fato isso passa para o lado do assédio. Então precisamos intervir. Falar de assédio moral é como falar de racismo. É o momento de dar visibilidade a esses temas. Eu não posso negar a existência dessas duas situações na Universidade. Só falando do assédio e racismo eu consigo trabalhar com as pessoas essa consciência.

Quais as propostas da gestão para trabalhar as pautas de diversidade?

Sexismo, racismo, homofobia e assédio moral existem, sim. Existem na UFRJ? Existem na UFRJ. E aqui é o nosso espaço de luta. Então, manteremos os grupos que já existem, a exemplo do Fórum de Políticas Raciais, que já iniciou um trabalho acerca desse tema. Vamos reforçar esse fórum para que possamos dar continuidade às atividades educativas e de visibilidade e, principalmente, àquelas reflexivas, para a tomada de consciência da comunidade em relação a esses temas.