Entrevista

Denise Pires: “É preciso fortalecer a educação no Brasil”

Victor França

Edição 17 / Maio / Junho de 2019
Foto colorida do salão nobre da Reitoria.
Salão nobre da Reitoria. Foto: Raphael Pizzino

Primeira mulher a ser eleita para o cargo de reitora da UFRJ, Denise Pires faz planos ambiciosos para a instituição. Para enfrentar o desafio que será comandar a maior universidade federal do Brasil, com mais de 52 mil estudantes somente na graduação, defende um diálogo permanente entre todas as pró-reitorias.

Denise, que assume o cargo em 8 de julho, quer construir uma universidade menos fragmentada e mais unida. E exemplifica: “A gente sabe que 10% das atividades de graduação são atividades de extensão, por isso essa integração é fundamental”.

Com a experiência de quem foi diretora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF) entre 2010 e 2013, almeja aumentar o número de concluintes dos cursos de graduação e fortalecer o tripé ensino, pesquisa e extensão, com definição de metas para cada área.

Nesta entrevista, concedida no dia 30/4, quando o Conselho Universitário confirmou seu nome após ser eleita pela comunidade universitária, a professora titular da UFRJ sustenta ainda a necessidade de fortalecer o ensino básico e superior: “Não há como o Brasil avançar com cortes de verbas para a educação, a ciência e a tecnologia”.

Foto colorida de Denise Pires na reunião do Colégio Eleitoral, que confirmou a sua chapa para encabeçar a lista tríplice. À esquerda, o vice-reitor eleito, Carlos Frederico Leão Rocha.
Denise Pires na reunião do Colégio Eleitoral, em 30/4, que confirmou a sua chapa para encabeçar a lista tríplice. À esquerda, o vice-reitor eleito, Carlos Frederico Leão Rocha. Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

Conexão UFRJ – Como a senhora recebeu a confirmação do seu nome, no Colégio Eleitoral, para ocupar o cargo de reitora da UFRJ?

Denise Pires – Foi um momento muito emocionante porque confirma a vontade da comunidade universitária. O exercício da democracia na nossa universidade sai fortalecido e é algo que a gente faz há quase um século. Nunca é demais enaltecer a democracia na nossa instituição porque é assim que ela vai avançar para melhorar o Brasil, como em todas as outras Ifes. Foi muito emocionante porque mostrou que a comunidade confia em mim e no Fred [Carlos Frederico Leão, eleito vice-reitor] para administrar essa casa que é a maior universidade federal do país, que tem uma grande tradição. Isso traz uma carga de emoção enorme, uma mistura enorme tanto de júbilo quanto de apreensão. Porém, mais do que isso, estamos confiantes porque a comunidade confiou na gente. E nós também acreditamos na comunidade e que a escolha dela signifique que seremos capazes de agregar mais do que dividir a nossa universidade, de fazer uma união necessária neste momento em prol de uma UFRJ mais acolhedora, que se planeje e que caminhe no sentido de melhorar a sociedade brasileira.

Conexão UFRJ – Quais serão as suas prioridades nos primeiros meses de gestão?

Denise Pires – Inicialmente, vamos apresentar metas a serem atingidas no Conselho Universitário, possivelmente já com a elaboração de um cronograma para que nos primeiros meses a gente tenha o tão almejado Plano de Desenvolvimento Institucional [PDI] aprovado, com as metas respectivas para as diferentes áreas, buscando sempre o fortalecimento do tripé ensino, pesquisa e extensão. Além disso, uma missão muito importante será aumentar o número de estudantes egressos nos diferentes cursos. A gente terá um foco inicial muito grande na graduação e na assistência estudantil, visando à melhoria no número de alunos concluintes. Para isso, é fundamental que a Pró-Reitoria de Graduação (PR-1) converse com a Pró-Reitoria de Assistência Estudantil (PR-7). A Pró-Reitoria de Pesquisa (PR-2) também deve conversar com a Pró-Reitoria de Extensão (PR-5). A gente sabe que 10% das atividades de graduação são atividades de extensão, e por isso a integração entre elas é fundamental. Muitos dos nossos estudantes atuam na iniciação científica, portanto também participam das atividades de pesquisa. Com essa integração, não haverá nenhum tipo de disputa entre as diferentes áreas do tripé. A gente quer um tripé equilibrado, fortalecido e bem articulado.

Conexão UFRJ – E como fazer isso?

Denise Pires – É preciso transformar a UFRJ numa universidade mais unida, menos desagregada, mais fortalecida. Sempre que a gente trabalha pela união o resultado é o fortalecimento da instituição. E pretendemos trilhar sempre o caminho da democracia, ou seja, do respeito aos conselhos superiores, para que a discussão seja ampla e que a pauta busque sempre o consenso nos diferentes assuntos. Buscar o consenso é discutir e convencer sobre o que é melhor para a UFRJ.

Conexão UFRJ – A sua equipe de trabalho já está montada?

Denise Pires – A gente já está com a equipe de pró-reitores montada, mas prefiro esperar a minha nomeação pelo presidente da República. É uma equipe que eu tenho certeza de que a comunidade vai gostar muito. Meu compromisso é que os pró-reitores sejam especialistas nas suas respectivas esferas de atuação e, mais do que isso, transitem entre as diferentes áreas.

Conexão UFRJ – Como avalia o fato de ser a primeira mulher eleita para o cargo de reitora da UFRJ?

Denise Pires – É uma honra e tem um significado histórico. Já há várias outras reitoras em universidades grandes do país, como a UFMG, que já teve três reitoras, e a Unifesp, que tem uma mulher ocupando o cargo no momento. Há reitoras atuando em outras Ifes. Faltava isso acontecer na UFRJ. Nós tivemos muitas vice-reitoras, estava na hora de termos uma reitora, porque isso é importante, sem dúvida nenhuma, para a tão almejada igualdade de gênero. No século XXI, temos no país, um número de professoras maior que o de professores. Na ciência brasileira, uma atividade importante das universidades, mais de 50% da produção é de mulheres. Portanto, há capacidade técnica. Não tem porque não haver mulheres participando da Administração Central no seu cargo máximo.

Conexão UFRJ – Que mensagem gostaria de deixar para a comunidade universitária e para a sociedade brasileira?

Denise Pires – A educação é transformadora. Precisamos fortalecer a educação no Brasil. Não há como avançar, no país, cortando verbas na educação, ciência e tecnologia. Sabemos que isso é verdade não por meio da teoria, mas porque outros países fizeram isso na prática. Então, eu espero que a sociedade brasileira esteja unida pela melhoria da educação, que passa pela qualificação dos professores e dos técnicos-administrativos que atuam nas instituições de ensino. Essa melhoria deve abranger o ensino básico e o ensino superior, com investimento não somente na qualificação, mas, principalmente, na valorização desses profissionais. O país não valoriza os professores e os servidores técnicos que atuam na área de educação, ciência e tecnologia. E precisamos valorizar esses profissionais, que são transformadores da sociedade, para que tenhamos uma sociedade mais justa e melhor para todos.

(Com colaboração de Coryntho Baldez)