Saúde

Dossiê saúde mental na UFRJ - Parte III: trabalhadores

Pedro Barreto

Edição 14 / Agosto / Setembro de 2018
Foto colorida de estudante sozinho em escada, representando o sofrimento causado pelo isolamento social.
Foto: Pixabay

“Professor não adoece, morre”. O ditado é lembrado por Sílvia Jardim, chefe da Seção de Atenção Psicossocial dos Trabalhadores (Saps) da Coordenação de Políticas de Saúde do Trabalhador (CPST), para ilustrar a baixa procura dos servidores docentes pelo atendimento em casos de adoecimento. Entre os técnicos-administrativos, os profissionais que mais procuram a CPST são os enfermeiros e técnicos em Administração.

O suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, em outubro passado, chamou a atenção para a questão da saúde mental nas universidades públicas brasileiras. No dia 14 de setembro de 2017, Cancellier foi preso, despido e algemado sob a alegação de dificultar as investigações sobre um suposto desvio de recursos na universidade. Interrogado por sete horas, o reitor negou as acusações. Depois de solto, sob determinação da juíza federal Marjôrie Cristina Freiberger, Cancellier foi proibido de frequentar a universidade onde cursara graduação, mestrado e doutorado em Direito. Com um quadro de depressão aguda diagnosticado, iniciou tratamento psiquiátrico à base de medicamentos controlados. O acompanhamento médico, contudo, não impediu o desfecho tráfico. No dia 2 de outubro, Cancellier se atirou do quinto andar de um shopping em Florianópolis. No bolso de sua calça foi encontrado um bilhete que dizia: “A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade”.

A morte de Cancellier abriu uma discussão sobre os excessos cometidos pela Polícia Federal e pelos operadores do Sistema Judiciário sob a justificativa de combater a corrupção. Gestores públicos entraram na mira de delegados, promotores e juízes. A condenação, muitas vezes, é decretada antecipadamente pelos veículos de comunicação. Ao chegar aos tribunais, a reputação do acusado já fora destruída. Não se trata, nesta reportagem, de analisar a lógica punitivista que assola o país. No entanto, antes de aprofundar acerca dos efeitos, é necessário apontar, ainda que de maneira breve, as causas estruturais e conjunturais que fazem com que tantas pessoas apresentem patologias como depressões graves, crises de ansiedade e outras formas de adoecimento mental.

Uma lógica adoecedora

A exposição a que foi submetido o reitor da UFSC é caracterizada por especialistas como um caso extremo de assédio moral, em que o servidor é humilhado publicamente. Outras situações mais sutis, porém, podem tornar o ambiente de trabalho igualmente nocivo. Na tese de doutorado “Trabalho docente, carreira doente: elementos que impactam a saúde mental dos docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Estudos de caso”, defendida em 2014 na Escola de Serviço Social (ESS), a professora Alzira Guarany conclui que as mudanças ocorridas no ensino público superior no Brasil, a partir da década de 1970, impuseram um ritmo de trabalho estranho ao universo acadêmico, uma lógica gerencial e um novo processo de trabalho, intensificando assim o sofrimento psíquico e o adoecimento mental. Aliados a essa transformação, outros fatores igualmente contribuem para esse quadro: “As condições de trabalho, as relações entre os pares e a fragmentação institucional e espacial da UFRJ, por exemplo”, diz Alzira Guarany, lembrando ainda que “esses efeitos nem sempre são visíveis pelos gestores da Universidade”.

Foto colorida da Fachada do Palácio Universitário, na Praia Vermelha.
Fachada do Palácio Universitário, na Praia Vermelha. Foto: Bruna Aguiar

Como metodologia, a professora aplicou um questionário a seis servidores docentes de diferentes unidades da UFRJ, indagando questões como a trajetória do trabalhador na Universidade, organização e relações de trabalho, condições, acidentes e doenças do trabalho, entre outras. Guarany pondera que a pesquisa “não nos dá autoridade para falar em nome da categoria de docentes da UFRJ” porque os dados coletados “não são, do ponto de vista estatístico, representativos de todo”. No entanto, ela chama a atenção para o fato de que os depoimentos dessa meia dúzia de professores podem revelar “a ponta de um iceberg” de uma realidade ainda mais assustadora.

Estatísticas

Algumas estatísticas apresentadas na pesquisa evidenciam a forma como a lógica gerencial da educação superior tem resultado no adoecimento de seus trabalhadores:

- Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o estresse já atingiu pelo menos metade da população economicamente ativa (PEA) no Brasil. Guarany alerta também que as consequências desse mal “são a causa da morte de mais de 2 milhões de pessoas no mundo, matando mais que as drogas e o álcool”.

- De acordo com o Anuário Estatístico da Previdência Social de 2012, 195.628 trabalhadores foram afastados de suas funções laborais devido a Transtornos Mentais e de Comportamento, tendo sido essa a terceira causa de pedidos de afastamentos naquele ano no Brasil.

- Informações da Previdência Social de 2013 demonstram que esses transtornos são a segunda causa de pedidos de benefícios entre os trabalhadores na área da Educação, mais especificamente nas instituições de ensino superior.

- O relatório da OIT de 2013 mostra evidências da relação entre o estresse e doenças musculoesqueléticas, cardíacas e do sistema digestivo. “Se esta relação for prolongada, isso pode contribuir para o surgimento de doenças cardiovasculares graves, casos de ansiedade, depressão e de outros distúrbios mentais, tendo mesmo conduzido algumas pessoas ao extremo do suicídio”, afirma Guarany.

A pesquisadora acredita que “as estratégias neoliberais na esfera das políticas públicas” levaram o ensino superior público no Brasil a reproduzir a lógica das organizações e instituições privadas, uma nova ordem que resultou no desinvestimento e na precarização das universidades públicas brasileiras, promovendo “um processo de reversão sob vários aspectos”, como a prioridade da “quantidade em detrimento da qualidade, as parcerias entre o público e o privado, a adoção de metas, padrões e métricas que não levam em conta as especificidades das áreas do saber, estabelecendo um novo padrão de trabalho” e afetando a qualidade de vida dos trabalhadores. Em resumo, a pesquisa da professora Alzira Guarany revela indícios de um sofrimento mental generalizado entre os servidores docentes da UFRJ, resultado de causas estruturais e de uma ordem político-econômica global de consequências avassaladoras.

Assédio moral

A lógica gerencial de que fala Alzira Guarany estimula práticas muitas vezes coercitivas, opressivas e violentas por parte das chefias, que são naturalizadas e invisibilizadas no transcorrer das rotinas de trabalho. O assédio moral é uma dessas práticas que podem levar o trabalhador a desenvolver quadros de ansiedade, depressão e outras patologias graves. Rosimere* é servidora técnico-administrativa da UFRJ e já passou por dois episódios de assédio na Universidade. Ela conta que, no primeiro caso, há cerca de 25 anos, a chefia se mostrou incomodada com o fato de ela buscar uma qualificação profissional. “Quando reivindicava o direito de me ausentar em determinados horários para as aulas, ouvia coisas do tipo: ‘Todo mundo está dando o seu melhor e você não quer colaborar’. Penso que a qualificação dos servidores técnico-administrativos não é bem vista na Universidade”, afirma.

Foto colorida do saguão da Reitoria.
Saguão da Reitoria. Foto: Marco Fernandes

A servidora diz que o clima ruim afetava todo o setor. “Em alguns casos, havia agressões verbais, desqualificação dos funcionários: ‘Não é possível que você não saiba escrever direito’, ou algo do tipo. Era frequente ver pessoas chorando. Recebíamos e-mails de madrugada e éramos cobrados pela manhã se aquela tarefa não tivesse sido cumprida”, recorda. Conforme apontado pelo relatório da OIT de 2013, a pressão psicológica provocou sintomas físicos. “Fui adoecendo porque me sentia muito mal. Tive síndrome do pânico, fui encaminhada para a DVST (atual CPST) porque passei a não querer estar naquele ambiente. Cheguei a voltar para casa quando já estava a caminho do trabalho. Tive dor de barriga e vômitos. Precisei tirar uma licença médica devido a uma gastrite que desenvolvi naquele processo”, relata. O acolhimento recebido na época, contudo, não foi o esperado. “Quando procurei a perícia na época, o médico me perguntou: ‘Você é casada? Tem filhos? Não? Então você não tem problemas’. Ele não levou em consideração o ambiente de trabalho extremamente nocivo, em que a cobrança era absurda, as práticas de assédio moral eram terríveis e as condições de trabalho, péssimas”, narra.

Cerca de 20 anos depois do primeiro episódio, já em outra unidade, Rosimere passou por situação semelhante. “Na segunda vez, eu já tinha um acúmulo de experiências e de trocas de opiniões com psicólogos, especialistas e com o movimento sindical. Mesmo assim, vivi momentos difíceis: primeiro fui constrangida a trabalhar em período de greve. Também tive minhas senhas trocadas, minha função esvaziada, fui invisibilizada. Quando finalmente consegui a transferência de unidade, recebi nota mínima na avaliação em todos os quesitos. E eu tinha e-mails que comprovavam o bom trabalho que eu realizava. Outras pessoas também passaram por isso na mesma unidade. Para mim, essa é a prova de que alguma coisa estava errada naquela gestão. Há uma dificuldade de entender o que é gestão de pessoas, mediação de conflitos etc. Tratam como se fosse uma ‘guerra’ pessoal contra um inimigo: de um lado estão aqueles que querem produzir; do outro, pessoas que querem prejudicar e se beneficiar do serviço público”, comenta.

“Parte-se do pressuposto de que todos estão mentindo”

A experiência pregressa, contudo, contribuiu para Rosimere* estar mais preparada para se proteger contra os danos causados pelo sofrimento. “Na época, eu estava fazendo tratamento no Ipub (Instituto de Psiquiatria da UFRJ) e estava mais fortalecida. Estive também no sindicato e procurei uma especialista em casos de assédio moral e que me acompanhou. Foi um momento difícil para mim, pois estava com um problema de saúde na família e, na época, entendi que aquela era a minha prioridade. Então, fiz uma opção pela minha família. Fui aconselhada a pesar a situação e decidir por aquilo que eu considerava prioritário, qual briga eu iria querer comprar”, recorda a servidora.

Para Rosimere*, nos casos de assédio moral, há grande dificuldade em buscar acolhimento e tratamento. “Esses episódios têm se tornado mais frequentes na Universidade. Muitas vezes, as instâncias responsáveis por tratar dessas questões são influenciadas pelas chefias”, aponta a servidora. “Não é raro as chefias questionarem os laudos médicos. Se existem profissionais qualificados para analisar os casos, como as chefias questionam esses laudos? Parte-se do pressuposto de que todos estão mentindo”, diz. “Acho que a grande questão é que as relações de poder sempre interferem quando se trata do ambiente de trabalho e, muitas vezes, fica-se no nível pessoal: ‘Fulano não gosta de mim, quer me prejudicar etc.’”, completa. Perguntada se acredita que houve uma mudança do primeiro episódio em relação aos dias atuais, Rosimere* não hesita: “As cobranças ainda existem, de alguma forma se modificaram, mas não desapareceram; muito pelo contrário”.

Más condições de trabalho afetam a saúde do trabalhador

Como aponta a tese de Alzira Guarany, a precarização e as condições inadequadas de trabalho também podem afetar a saúde do trabalhador. “O debate sobre a saúde mental é extremamente relevante, não só entre alunos, mas também entre os professores. Atualmente, muitos docentes estão adoecendo e se afastando para tratamento devido a doenças psiquiátricas, principalmente depressão”, relata Alessandra Sarkis, diretora da Escola de Educação Infantil (EEI) e graduada em Psicologia.

Foto colorida da Escola de Educação Infantil.
Escola de Educação Infantil. Foto: Pedro Barreto

“Hoje nós temos alguns casos assim na Escola, inclusive estagiários com diagnóstico de depressão. Quanto mais degradante é a condição de trabalho, maior a possibilidade de agravamento do quadro de adoecimento”, analisa. “Tivemos recentemente o caso de uma professora substituta que desistiu do contrato. Ela ia completar um ano na Escola e estávamos tentando dar suporte. Essa é uma prática comum: sabemos que no início é difícil e tentamos apoiar na medida do possível. Temos um grupo de professores com formação em Psicologia para essas situações”, completa Alessandra, para quem a atividade docente não pode estar desconectada da emoção. “Não é uma relação burocrática. Por isso procuramos dar esse amparo”, afirma.

A diretora da EEI diz que é preciso atenção e cuidado por parte dos gestores na condução dos casos de adoecimento mental. “É difícil atuar quando não existe um acúmulo de debates sobre o tema. Por exemplo, às vezes a chefia sugere que a pessoa em situação de adoecimento se afaste, e isso pode soar tanto como ajuda quanto como agressão. É um limite muito tênue”, observa Alessandra. “Quando nós notamos que alguma pessoa está em situação de adoecimento, tendemos a banalizar aquele sofrimento. Então, a minha sugestão é estar atento, tentar ajudar ou indicar alguém que possa oferecer ajuda. Porque a banalização pode acarretar resultados muito graves, até mesmo o suicídio”, alerta Cristina Miranda, diretora do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ, também observa a relação entre as condições de trabalho e a saúde mental do trabalhador. “Estamos vivendo tempos muito difíceis, de muita precarização do trabalho e muita tensão nas relações. E eu acho que isso, numa relação de trabalho, é fundamental. Primeiro, para você ter condições adequadas de trabalho. Segundo, para que isso também melhore as relações humanas”, analisa. “Se o local de trabalho está precarizado, as relações humanas estabelecidas ali já vão ser rebaixadas. Então, se o trabalhador está em um ambiente de opressão, seja porque as relações oprimem o trabalhador, seja porque as condições oprimem o próprio trabalho, nós temos menos condições de estar saudáveis”, completa.

Cristina relata a ocorrência de sintomas de adoecimento no CAp. “Eu acho que a tendência é um adoecimento geral. Ele começa apresentando sintomas físicos, pois o trabalhador se força a trabalhar mais, até chegar à saúde mental também. E eu entendo saúde mental como alguém que apresente sintomas de depressão, ansiedade etc.”, aponta. “Nós temos vários professores vivendo isso hoje no CAp. Eu escuto muitos deles falando sobre isso. Mas o profissional precisa pedir ajuda, comunicar formalmente à instituição que ele não está se sentindo bem. Precisa se apresentar e manifestar o problema”, opina a diretora do CAp-UFRJ, que diz ainda estar buscando alternativas para lidar com a situação. “Estamos elaborando uma pesquisa sobre o tema com os trabalhadores e com os estudantes para pensar em desdobramentos coletivos na escola”, afirma.

Para ela, a UFRJ deve buscar o caminho da reflexão e do diálogo a fim de encontrar saídas para um problema comum a toda a Universidade: “Eu não vejo a UFRJ hoje preparada para lidar com casos de adoecimento mental. A Universidade é muito grande e nós ainda não damos conta de fazer uma reflexão mais profunda sobre isso. Falar sobre, escrever, publicizar, para que possamos discutir o excesso de trabalho, as condições e a falta de relações mais humanas no ambiente de trabalho. É muito importante pensarmos a questão dos espaços coletivos e das relações humanas na Universidade”.

Foto colorida de Cristina Miranda, diretora do Colégio de Aplicação da UFRJ.
Cristina Miranda, diretora do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRJ. Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

Mapeamento

Gabriel Cid é representante dos servidores técnico-administrativos no Conselho de Coordenação do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) e membro da Comissão de Direitos Humanos e Combate às Violências da UFRJ, criada pela atual Reitoria. Ele diz que estão sendo feitas pesquisas para o mapeamento e a prevenção de casos de assédio moral e outras formas de opressão ao trabalhador. “Nós temos trabalhado, junto com a PR-4, na confecção de um questionário que será aplicado entre os trabalhadores da Universidade. O objetivo é pensar como eles se colocam em relação a certos sintomas emocionais que podem indicar problemas mais graves”, diz Cid.

A partir desse levantamento, a comissão pretende mapear os casos, buscar formas de prevenção e utilizar os canais de comunicação da Universidade para informar as instâncias disponíveis na instituição para esse acolhimento. “O que nós precisamos é estar atentos que essa questão é invisibilizada. Muitas vezes o servidor não procura ajuda ou não sabe que existe um problema maior por trás dessa questão, e que ele pode buscar ajuda na própria Universidade e nas instâncias que realizam essa acolhida”, comenta Cid, destacando que a comissão atua junto a outras instâncias, como o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e os Centros Acadêmicos (CAs), no sentido de falar sobre o trabalho realizado e o combate ao machismo, racismo, LGBTfobia e outras formas de violência.

Cid fala das relações de poder existentes dentro da Universidade, que, por vezes, tendem a naturalizar práticas de assédio moral. “Justamente por isso estamos tentando conscientizar as pessoas e acolhê-las da maneira mais discreta e qualificada possível, sem constranger ainda mais e aumentar o problema. Por isso nós esperamos que esse debate seja cada vez mais incentivado”, diz o representante do CFCH. “Existem vários indicadores pelos quais o trabalhador pode perceber se há alguma prática de coerção naquele ambiente. O problema é que muitas vezes essas práticas são naturalizadas e não se percebe que elas estão constrangendo algum direito. É por isso que estamos concentrando esforços em espalhar campanhas contra o assédio moral pela UFRJ: para que as pessoas percebam que tais práticas existem muito mais do que nós imaginamos”, afirma Cid, apontando ainda outras formas de atuação da comissão. “O que procuramos fazer é um acompanhamento dessa pessoa que busca o acolhimento, dizendo quais são as possíveis medidas a que ela pode ter acesso no âmbito da Universidade, se ela está disposta a buscar a Ouvidoria, a PR-4 ou outra”, explica.

O servidor assediado, contudo, deve ser preservado e protegido de novas situações que possam agravar o adoecimento. “Uma das nossas preocupações é evitar que essa pessoa seja colocada de novo em uma situação constrangedora. Ela não pode voltar para a chefia que está cometendo o assédio; isso iria torná-la ainda mais vulnerável”, diz Cid. Para identificar e caracterizar o adoecimento, o trabalhador deve ficar atento a sintomas como insatisfação, sentimento de insignificância e de isolamento. “Ele pode sentir que realiza tarefas inócuas, de pouco protagonismo em determinadas situações, perceber que não há abertura para conversas no âmbito mais democrático, fora os sintomas de depressão mais grave, desejo de se matar... Em suma, perceber se no seu cotidiano existem situações que o fazem não ter alegria de estar ali, de não ter tranquilidade e que possam aflorar em sua vida pessoal e familiar”, comenta o representante do CFCH.

Mais espaços de debates

Foto colorida do prédio da Coordenação de Políticas de Saúde do Trabalhador.
Prédio da Coordenação de Políticas de Saúde do Trabalhador (CPST). Foto: Gabriel Sperandio (CPST / UFRJ)

A Coordenação de Políticas de Saúde do Trabalhador (CPST) é o órgão responsável na UFRJ pelo atendimento, acolhimento e tratamento de trabalhadores. Em alguns casos, a equipe visita os locais de trabalho para avaliar o meio em que podem estar ocorrendo casos de precarização e assédio moral que causem ou agravem um quadro de adoecimento. “Estamos tentando agora, através da elaboração de uma portaria, conferir institucionalidade a essas visitas. Algumas vezes, o chefe imediato não autoriza a visita desses profissionais ou não valoriza o diagnóstico da equipe. Essa institucionalização vai representar o aval da Administração Central e das unidades de que esse trabalho será respeitado”, informa Gláucia Castro, diretora da Divisão de Desenvolvimento, Inovação e Marketing Institucional da CPST.

Uma conquista recente foi a publicação de uma portaria que autoriza, por laudo pericial, a movimentação de servidores e de familiar ou cônjuge que viva às suas expensas, em caso de adoecimento. “Essa portaria vai além da questão do trabalho, ela representa o foco de uma política de pessoal voltada para o ser humano. Eu tenho quase certeza de que isso é inédito no serviço público federal”, diz Gláucia. Para aprimorar o trabalho, Gláucia reivindica a incorporação de mais profissionais e a criação de novos fóruns de discussão sobre o tema. “A comunidade universitária tem que dizer para a Administração Central o que eles querem de uma política para a saúde do trabalhador. A partir daí, teremos subsídios para solicitar outras ações. O servidor e a comunidade universitária precisam cobrar, fazer pressão, demandar à gestão para que nós tenhamos condições de atendê-los da melhor maneira possível”, afirma.

Na divisão dirigida por Gláucia está a Seção de Atenção Psicossocial dos Trabalhadores (Saps), que desde 1994 desenvolve o Projeto de Assistência em Saúde Mental dos Trabalhadores (Prasment). A equipe, formada por dois psiquiatras, quatro psicólogos, três assistentes sociais, uma enfermeira do trabalho e uma assistente em Administração, é a responsável pelo acolhimento das demandas sobre saúde mental na CPST. O atendimento também é realizado no Instituto de Psiquiatria (Ipub), localizado no campus da Praia Vermelha. A professora e psiquiatra Sílvia Jardim, chefe da Saps/CPST, explica que os casos atendidos podem ser enquadrados em três grupos:

- O primeiro são os casos graves, que incluem emergências, surtos psicóticos e depressões graves. “Eles podem ocorrer no local de trabalho e os colegas e as chefias podem ser a ponte com a CPST. Mas, em geral, é a família quem nos procura”, conta. Sílvia diz que a preocupação da equipe é o atendimento ao ser humano. “Desde o início, nós propusemos atender não apenas as questões causadas pelo trabalho, mas todas aquelas que dizem respeito ao trabalhador, em sua vida dentro e fora da Universidade”, esclarece.

- O segundo grupo são os transtornos mentais comuns, “mas não menos importantes”, pontua Sílvia. Exemplos são os casos de depressão e ansiedade em um grau de menor gravidade que os do primeiro grupo. “Do mesmo modo, muitas vezes estão relacionados com o trabalho, outras vezes não. Mas só fazemos essa separação depois”, completa a psiquiatra.

- No terceiro, estão episódios de conflitos, assédio e violência no trabalho ou nas relações de trabalho. “Hoje esse grupo tem ganhado mais visibilidade. Os trabalhadores têm mais consciência de que estão sendo pressionados. Eles estão nos procurando mais com esses tipos de queixa. E, muitas vezes, já em situações de sofrimento”, comenta.

Pouco estudo sobre trabalhadores de universidades

Sílvia observa que há poucas pesquisas sobre o adoecimento mental de servidores públicos de universidades. “Essa categoria de trabalhadores universitários é muito pouco estudada. Eu trabalho há muitos anos na área e só agora estão aparecendo pesquisas sobre essa categoria profissional. Muitas vezes, os próprios pesquisadores eram as pessoas a serem pesquisadas. Perceber o servidor público como uma categoria profissional que tem os seus riscos e questões de saúde mental peculiares é uma coisa muito recente”, aponta.

Nas informações tornadas públicas constam que os enfermeiros e os assistentes em Administração são os profissionais que mais procuram atendimento na CPST, de acordo com Leonardo Lessa, também psiquiatra da Saps. “Esses dois grupos representam ¼ dos casos cada. Os outros 2/4 estão diluídos entre os demais profissionais”, afirma Lessa, para quem a ausência de identificação de metade dos casos revela a dificuldade no detalhamento das informações desses trabalhadores, suas rotinas, condições de trabalho e outros dados. Segundo o psiquiatra, os casos mais frequentes são os transtornos de humor, classificados como episódios depressivos recorrentes. “Apesar de estarem identificados como um grupo de menor gravidade, se comparados com os transtornos psicóticos, são os que mais aparecem”, esclarece.

Entre os servidores docentes, Sílvia Jardim observa um maior adoecimento entre os mais jovens e aqueles que trabalham em situação de maior precarização, como os professores substitutos, ou que atuam em polos avançados, onde as condições de trabalho tendem a ser mais deficientes. “Esses casos aparecem individualmente, não como parte de um todo. Isso porque somos muito procurados por essa categoria”, diz a psiquiatra, mencionando a tese da professora Alzira Guarany. “Nesses anos à frente deste projeto, eu aprendi o ditado ‘professor não adoece, morre’. Isso quer dizer que o docente não costuma vir à CPST. Muitos nem nos conhecem. Até pouco tempo, os servidores sequer passavam pelo exame admissional (também realizado pela CPST)”, comenta.

Segundo Leonardo Lessa, a razão para isso pode estar na autonomia do trabalho docente. “As estatísticas indicam que a categoria docente tem um índice de afastamento infinitamente inferior aos demais trabalhadores. Até certo tempo, o professor evitava o afastamento, trocando os horários com algum colega, ou de outra maneira. O mesmo acontece com os médicos. Agora isso tem mudado um pouco, devido às mudanças nas relações de trabalho na Universidade”, analisa Lessa. “Já uma secretária não tem alternativa se ela não buscar o atendimento e solicitar uma licença médica. A CPST sempre controlou mais o absenteísmo dos técnicos-administrativos. Daí a maior procura por atendimento dessa categoria em relação aos docentes”, completa Sílvia Jardim.

A chefe da Saps enxerga o debate interno na UFRJ como uma maneira de lidar com a questão do adoecimento mental. “A universidade é uma organização de trabalho altamente complexa. Nós não abordamos essa complexidade, o que realmente prejudica a nossa saúde mental. Poderíamos ter uma saúde mental melhor. Para isso, contudo, precisamos sentar e conversar mais, conhecer melhor o outro”, afirma. A psiquiatra menciona ainda o projeto de construção de uma rede de atenção psicossocial dentro da Universidade, que atenderá os cinco campi e as cerca de 80 unidades: “Estamos trabalhando para isso”, diz Sílvia Jardim.

Alzira Guarany, em sua tese, vai em direção semelhante. Para ela, o debate pode ser estimulado pelas mídias internas da UFRJ, de modo a convidar os trabalhadores a “darem depoimentos em entrevistas protegidas sobre como se sentem em relação à sua jornada laboral, condições de trabalho e suas implicações em termos de sofrimento psíquico”. Segundo a pesquisadora, “esses relatos nos trarão o drama das experiências vividas, do sofrimento vivenciado, sem necessidade de vulnerabilizá-los ainda mais”. Se esta série de reportagens tiver ajudado, de alguma forma, a amenizar o sofrimento dos trabalhadores e estudantes desta Universidade, informar e promover o debate aberto sobre o tema terá cumprido a sua finalidade.

Serviço

A Saps/CPST-UFRJ realiza o atendimento ao trabalhador na UFRJ todos os dias – não é necessário agendar – na CPST, localizada na Rua Maurício Joppert da Silva, s/nº, Cidade Universitária, e no Instituto de Psiquiatria (Ipub), no campus da Praia Vermelha, que fica na Avenida Pasteur, 250, Urca. Mais informações podem ser obtidas aqui.

*O nome foi alterado.

Jornalista do Setor de Comunicação do CFCH