Educação

Fim do ensino superior público pago no Chile. Por que o silêncio?

Peter Schulz

Foto colorida de estudantes que se mobilizaram em favor da educação univesitária gratuita, agora alcançada.
Estudantes se mobilizaram em favor da educação univesitária gratuita, agora alcançada.

Há pouco mais de dois meses um fato banal em si transformou-se em grande notícia. O fato era a entrega de um relatório encomendado pelo governo federal, um ”ajuste justo” proposto pelo Banco Mundial. Entre outros, um ajuste bastante divulgado pelos grandes meios de comunicação. Era o fim da gratuidade no ensino superior público no Brasil [I].

A repercussão foi enorme, lançando-se mão de exemplos bem sucedidos nesse sentido, como o da Inglaterra. A ampla divulgação não trazia junto o “outro lado”, o contraditório. As críticas a essa proposta apareceram em veículos de menor penetração e, em parte, por meio das redes sociais.

Uma vez formados esses polos, não ocorreu propriamente um debate público, não apareceram tréplicas para provocar reposicionamentos ou aprofundar as argumentações. Polarizações sem o necessário embate qualificado são comuns e um caso específico foi analisado de forma bastante clara e será útil para entender a pergunta do título: a (des)informação sobre um ataque com mísseis à Faixa de Gaza em 2014.

A análise, tanto da cobertura de imprensa de um lado e a omissão de outro, quanto da repercussão nas redes sociais, é de Gilat Lotan da New York University [II]. Vale a pena olhar a imagem da rede de respostas pelo Twitter sobre esse fato a partir de um tweet do Haaretz.com. É possível ver que as comunidades de twitters “pró-Israel” e as “pró-Palestina” praticamente não se conectam: polarizam-se, mas nenhuma delas se interessa pelo outro lado da história.

Um dos “olhos” – como são chamadas as frases em destaque de um artigo – no texto de Lotan é digno candidato a epígrafe: “nós não estamos vendo pontos de vista diferentes, e sim mais do mesmo”. Um subtítulo também é sugestivo: “a mídia constrói a realidade”.

Quanto aos grandes meios de comunicação, Lotan notou que portais de um dos polos anunciaram claramente o incidente, enquanto que os dos outros polos pouca menção fizeram ao assunto. Isso lembra bem o caso de poucos dias atrás.

Nos desdobramentos do debate (que acabou não existindo) a partir do relatório do Banco Mundial, seria importante uma análise mais aprofundada da realidade nos países onde o ensino superior público é pago, como os Estados Unidos ou a Inglaterra [III] e, mais perto daqui, o Chile.

Nesse contexto, foi quase por acaso que ficamos sabendo que “O congresso do Chile aprovou lei de gratuidade da educação superior” no dia 24 de janeiro (manchete do eldiario.es [IV]). Para chegar pelo Google a essa matéria, passei primeiro por uma pequena nota no Jornal da Ciência da SBPC e pelo blog do Freitas [V], que exibe o link para a matéria na Carta Educação, o único veículo de comunicação que parece ter divulgado a notícia por aqui.

Foto colorida de Miclelle Bachelet, presidenta do Chile, assinando a lei do ensino superior gratuito e universal.
Miclelle Bachelet, presidenta do Chile, assina lei do ensino superior gratuito e universal. Foto: Alex Ibañez (Presidência do Chile)

Assim, temos um relatório que propõe uma coisa (ensino superior público pago) amplamente divulgada e um fato importante, mas no sentido contrário (fim do ensino público pago em um país vizinho), que foi obliterado. Lembrando o texto de Lotan: a mídia constrói a realidade?

Voltando ao fato principal, qual é a notícia? A Câmara dos Deputados aprovou com 102 votos e duas abstenções a lei de ensino superior, que universaliza sua gratuidade e introduz outras reformas em um sistema vigente desde a ditadura de Pinochet. O plano já vem de certo tempo e começou a ser posto em marcha em 2016 [VI] debaixo de críticas vindo de diferentes pontos do espectro político.

O que é comum em várias das narrativas é o alto custo do sistema que agora tem finalmente o marco legal para sua mudança: as mensalidades das universidades chilenas estão entre as mais caras do mundo em termos de paridade de poder aquisitivo [VII]. Esse modelo, que agora é reformado, correlacionou-se com uma enorme expansão do ensino superior, mas desonerou o Estado, à custa de onerar as famílias e os estudantes, de forma não sustentável. São conhecidos os protestos estudantis no Chile em 2006 e 2011, os quais motivaram a reforma em questão.

Entender um sistema de ensino em outro país não é tarefa rápida e simples, mas é imprescindível para uma discussão qualificada. Tomar apenas um ou outro aspecto de forma isolada é simplesmente um exemplo do que já foi batizado como "sincericídio" [VIII]. O que deve ser oferecido, portanto, é acesso a diferentes narrativas. Aqui eu apresentei algumas e acrescento ainda a de J. Salvador Peralta, publicada no portal Times Higher Education [IX] em julho do ano passado, ou seja, em pleno debate da lei que foi aprovada praticamente por unanimidade meses depois.

Ao considerarmos exemplos de qualquer lugar que seja, precisamos nos debruçar sobre essas experiências ao longo do tempo como um todo. Dessa forma, podemos perceber que o que foi apresentado por alguns como uma solução "mágica" (e trágica) acabou em farsa e precisou ser substituído.

Convido a todos a acompanhar o desenvolvimento do ensino público e gratuito no Chile. Torço por ele, pois Peralta adverte que a reforma estaria condenada por ser boa demais. Espero também que tenhamos mais acesso às informações sobre esse assunto, sem as manipulações de dados, como as confessadas recentemente pelo Banco Mundial [X].

Professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).