Pesquisa

Plantas respondem geneticamente ao contato com o petróleo

Ana Carolina Correia

Edição 19 / Setembro / Outubro de 2019
Conjunto de plantas em experimento no laboratório. Em plano geral, elas estão distribuídas em copos de plástico e armazenadas com terra
Foto: Artur Moês (Coordcom/UFRJ)

Desde o final de agosto um grande vazamento de petróleo assola o litoral nordestino. Até o presente momento, quase 30 praias foram atingidas por mais de mil toneladas do óleo negro, viscoso e tóxico. Enquanto voluntários correm riscos na limpeza e o governo falha na atuação diante da catástrofe, importantes áreas de reprodução da biodiversidade, como os manguezais, padecem. Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Biologia (IB) pode revelar uma ajuda vital para a preservação da fauna e flora brasileiras a partir do estudo de mudanças genéticas nas plantas do mangue em contato com o petróleo.

Em parceria com o Instituto de Microbiologia e com a Petrobras, Pesquisadores do IB investigam, há oito anos, a reação da flora do mangue, buscando compreender que mecanismos genéticos são ativados após a intoxicação e de que maneira é possível replicar tais modificações para a preservação das espécies nativas. Segundo Marcio Alves-Ferreira, professor da UFRJ e coordenador do Laboratório de Genética Molecular e Biotecnologia Vegetal, o mangue atua como proteção da área costeira e berçário de parte da flora e da fauna marinha, tendo assim grande importância ambiental e econômica.

“Calcula-se que mais de 80% de todo o pescado do mundo é dependente direta ou indiretamente do manguezal. Ele é berçário para várias espécies de fauna, não só costeira, mas também de alto mar de desovam ali, como a enchova. Se ele deixar de existir, esse pescado todo também desaparece. Além disso, o mangue filtra muitos dos compostos que são liberados no mar, tendo uma função importante nessa regulação”, avalia.

No início dos estudos, a equipe pretendia compreender como as plantas se comportavam em ambientes de estresse relacionados à contaminação por petróleo. Diferentemente dos animais, as plantas precisam se adaptar ao ambiente, já que são organismos sésseis – não se deslocam voluntariamente. Elas precisam ser capazes de se modificar a expressão gênica para que possam viver sob uma série de condições inóspitas.

Pesquisador Marcio Alvez Ferreira posa para foto em seu laboratório, entre duas prateleiras que armazenam plantas
Marcio Alves-Ferreira em seu laboratório. Foto: Artur Moês (Coordcom/UFRJ)

A equipe, então, iniciou testes com espécimes para detectar essas modificações. “Iniciamos os experimentos com uma planta que não é típica do mangue, a planta modelo Arabidopsis thaliana que cultivamos em laboratório e tem um ciclo de vida rápido”, descreve. Depois, os pesquisadores seguiram para um espécime muito representativo das áreas de mangue brasileiro: a Laguncularia racemosa. “Queríamos saber como a planta iria responder para entender o impacto e consequentemente como o óleo pode afetar o manguezal, já que a flora é a sustentação do mangue. Se essa flora deixa de existir ou se ela é impactada/estressada, todo o bioma corre o risco de desaparecer ou se deteriorar”, afirma Alves-Ferreira.

A conclusão foi que, por mais que tenham mecanismos de defesa, as plantas não têm uma capacidade específica de resistência ao petróleo, mas apresentam outras alterações que podem protegê-la contra os malefícios da contaminação. Segundo o professor, durante a pesquisa as plantas expressaram genes que as protegeriam contra o calor e a falta de oxigênio. “Vimos que, em contato com o petróleo, ela desenvolve resposta a outros estresses, usando os sistemas que ela já está acostumada a lidar”, explica.

O pesquisador considera que o experimento tem impacto significativo em diversas áreas. Em primeiro lugar, foi possível analisar a planta em nível molecular como nunca havia sido realizada, promovendo, assim, maior compreensão sobre suas características. Além disso, a observação das respostas genéticas na Laguncularia racemosa permitirá uma maior percepção de áreas afetadas e o desenvolvimento de tecnologias que auxiliem na identificação desses estresses. “Assim será possível monitorar em quais áreas será necessária a preservação e recuperação para que aquela vegetação não acabe desaparecendo”, conclui.