Universidade

Resistência se cultiva em casa

Patrícia da Veiga

Edição 18 / Julho / Agosto de 2019
Imagem de uma plantação. Um galho fino com folhas pequenas em destaque.
Foto: Ana Marina Coutinho (Coordcom/UFRJ)

Largo Wanda de Oliveira, 400, Cidade Universitária. Nesse endereço, por trás de dois edifícios dispostos perpendicularmente, há uma vasta área que, no horizonte, encontra-se com a Baía de Guanabara. O lugar já foi aterro, entulho, mato. Hoje, tem um solo que se recupera, convive com árvores frutíferas, ervas, raízes, plantas alimentícias não convencionais. Estamos falando do quintal de uma grande casa que abriga 219 moradores: a Residência Estudantil da UFRJ.

Entre 2012 e 2013, alguns estudantes perceberam que poderiam transformar a paisagem que viam da janela de seus dormitórios em área de convivência. Inspirados pelos projetos de extensão Capim-Limão, das Ciências Biológicas, e Mutirão de Agroecologia (Muda), da Escola Politécnica (Poli), arriscaram-se no cultivo da terra. “Aqui só tinha essa árvore [apontando para uma volumosa mangueira]. O resto, a gente plantou”, comenta Fernanda Gabriela Coelho Silva, estudante da Faculdade de Letras e uma das pioneiras da iniciativa. “A gente remanejou umas bananeiras e, para fincar nossos sonhos, plantou uma espada de São Jorge no centro do terreno”, descreve.

A iniciativa foi nomeada Plantando na Moradia e assumiu a tarefa de promover saúde e bem-estar às pessoas que por ali passam. Longe da família, povoando uma cidade nem sempre hospitaleira, enfrentando desafios inéditos em suas trajetórias e respondendo às exigências de suas graduações, com poucos recursos financeiros e condições adversas dentro do próprio alojamento, os estudantes entenderam que o contato com a natureza poderia ser uma forma de resistir.

Pessoas se reúnem em volta de uma compostagem. Ao fundo, árvores frutíferas.
Estudantes do curso de Ciências Biológicas são recebidos na área do Plantando na Moradia. Foto: Ana Marina Coutinho (Coordcom/UFRJ)

“A estrutura física da Residência contribui para que as pessoas fiquem no quarto. Então, essa foi a forma encontrada para tirar as pessoas do isolamento”, avalia Renata Werner Corrêa Pereira, aluna de Serviço Social e moradora da casa desde 2013. “O Rio de Janeiro é um lugar muito desigual, violento, corrupto. Para mim, é pesado viver nessa Babilônia. Quando vim para o alojamento, em 2015, tive contato com o Plantando na Moradia, e esse espaço foi um refúgio, como era o propósito das pessoas que o criaram”, confirma Thállita Sanches Gomes, estudante de Ciências Biológicas. “Onde tem índio, tem floresta! Eu não iria morar aqui sem plantar a minha floresta. Não tem como a gente se separar da natureza. Nós somos a natureza”, define Mauro Adriano, da etnia Araweté, morador da casa desde 2015 e discente da licenciatura em Geografia.

Em seus dois primeiros anos de existência, a plantação tinha foco em hortaliças e crescia conforme a disponibilidade e a criatividade dos estudantes. Foram tempos aguerridos em que não se tinha sequer ferramentas. “Usávamos o que podíamos para plantar. Arrancávamos o capim com as mãos, cavávamos a terra com pedaços de madeira, abríamos as leiras e íamos botando as sementes”, lembra Mauro Adriano.

Em 2015, o grupo passou a experimentar as bases do sistema agroflorestal, empregando técnicas para recuperar o solo, apostando em um manejo sistematizado, observando o tempo, a luz do sol, as necessidades de cada planta. “A agrofloresta é a sucessão ecológica provocada. Inserimos nutrientes no solo e usamos plantas que têm uma sequência lógica de tamanho, de tempo de crescimento, que atuam de diferentes formas. Depois de certa frequência, as condições do solo vão melhorando, fazemos outro plantio e vamos mudando a roça de lugar”, ensina Mauro.

Desde então, a ênfase da produção foi dada às plantas medicinais e não convencionais, em convivência com as frutíferas. “Banana, acerola, citronela, capim-limão, limão, chaya, none, hortelã-pimenta… O que mais? É muita coisa!”, admira-se Fernanda, listando um pouco do que há no quintal.

O grupo também passou a fazer compostagem de seus resíduos orgânicos, incentivando os moradores do alojamento a separarem seu lixo. E após participação no I Encontro dos Grupos de Agroecologia da Região Sudeste, em 2016, no Campus de Alegre da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), decidiu implementar o “plantio de água”, técnica que prepara o solo para aproveitar ao máximo a água da chuva, evitando alagamentos e estresse hídrico, tornando a terra um reservatório.

Na foto em preto e branco, um rapaz usa o tronco de uma árvore como apoio. Ao fundo, árvores e um edifício.
Mauro Adriano preparando o Petyn (Tabaco Sagrado de Reza), antes da entrevista. Foto: Ana Marina Coutinho (Coordcom/UFRJ)

À sombra de uma das árvores, os estudantes aproveitaram materiais para fazer dois bancos largos de madeira, uma mesa e uma cadeira “espreguiçadeira”. “Tudo com recursos naturais e locais”, apresenta Renata. E à medida que o espaço de convivência é cultivado, se torna referência para cursos, recepções a novos alunos, almoços comunitários, mutirões, rodas de conversa, atividades lúdicas e artísticas para crianças e adultos.

O resultado desse trabalho tem sido o interesse das pessoas “de fora”, sobretudo trabalhadores terceirizados que atuam na Residência e moradores de bairros vizinhos que circulam pela Cidade Universitária. “É lindo ver que já colhem nossas frutas, nossas ervas”, opina Mauro. O movimento, contudo, poderia ser melhor entre os próprios estudantes. “Nós ainda somos um grupo pequeno. Um dos nossos desafios é dar visibilidade ao projeto. O Plantando na Moradia faz parte do alojamento. Chamamos esse espaço de quintal, mas é um espaço do alojamento que muitos não reconhecem, [pois] não se sentem pertencentes”, declara Renata, demonstrando preocupação.

Para Thállita, outro desafio é fazer os estudantes permanecerem. “As pessoas saem, têm problemas pessoais, têm outros compromissos. Nas férias, vão para suas casas. Então o espaço nem sempre tem regularidade”, revela. A vontade do grupo é que o Plantando na Moradia se torne um projeto de extensão ou parte da política de assistência estudantil da Universidade, com planejamento, recursos para sua manutenção, registro de sua memória.

“Cada participante que passa por aqui deixa o seu toque, sua contribuição. Temos sete anos de existência e já passamos por várias fases, não podemos deixar isso aqui acabar”, defende Thállita. “A Residência abriga, vamos dizer, a periferia da Universidade. São alunos mais pobres e vulneráveis, são muitas diferenças. O alojamento é um lugar que precisa de um olhar atencioso. O Plantando na Moradia tem a ver com isso”, reivindica Fernanda.

Uma pessoa segura a raiz de uma planta. Pessoas estão ao seu lado, formando um círculo. No ambiente, árvores.
Estudantes são facilmente atraídos ao coletivo, mas enfrentam dificuldades para permanecer. Foto: Ana Marina Coutinho (Coordcom/UFRJ)

Tristes recordações

É impossível falar do Plantando na Moradia, cujo objetivo é ser um contraponto ao desassossego, sem retomar dois episódios profundamente tristes para os estudantes. Primeiro, em julho de 2016, o assassinato de Diego Vieira Machado, o Govz, estudante de Letras que acabara de se transferir para a Arquitetura. Em uma tarde de sábado, Diego saiu para almoçar no Restaurante Universitário (RU) Central e não voltou. Foi encontrado morto, a cerca de 200 metros de casa, com as calças arriadas e sinais de luta e agressão pelo corpo.

O caso jamais foi explicado e trouxe a quem convivia com Diego múltiplos sentimentos: dor, revolta, medo, inquietação. Para, de algum modo, sublimar o vivido, os discentes o homenagearam, emprestando o seu apelido à horta cultivada ao lado da Faculdade de Letras. “Diego era uma pessoa muito agregadora. Quando ele morreu, uniu as pessoas da mesma forma, muitas homenagens foram feitas. A Govz ao Pé da Letras, criada durante um encontro da Rede de Agroecologia da UFRJ, foi a homenagem do Plantando na Moradia para ele”, defende Mauro. “Assim, fica o questionamento: quem matou Diego?”, indaga.

O segundo fato foi o incêndio que atingiu o bloco B da Residência Estudantil, em agosto de 2017, deixando quatro pessoas feridas e outras tantas com problemas respiratórios, traumas, mais medo. As plantas morreram, o solo enfraqueceu, os estudantes perderam seus pertences, foram reprovados por falta ou nota baixa durante o semestre, tiveram de ir embora e quem ficou enfrentou, no bloco A, mais desgaste e superlotação. No Plantando na Moradia, tudo teve de recomeçar. “Tentamos fazer mutirões pós-incêndio para amenizar a dor, para um cuidar do outro, mas não resistimos de imediato. Alguns integrantes se separaram. Levamos um tempo para nos reconstruir”, relembra Fernanda.

Ao fundo, a realidade

A Residência Estudantil possui dois prédios com três andares cada e o total de 504 apartamentos. Destes, mais da metade está interditada. Atualmente, a Pró-Reitoria de Políticas Estudantis (PR-7) calcula que 219 pessoas vivam na casa, mais especificamente no bloco A. O bloco B ainda não foi recuperado do incêndio.

Inaugurado em setembro de 1972, o alojamento nunca havia passado por reformas até 2014, quando as obras tiveram início no bloco A. Entregue em 2016, os estudantes já reclamam de goteiras, infiltrações e mofo. “Teve também a chuva que derrubou o teto do prédio novo. Vários cômodos ficaram alagados, teve gente que perdeu computador, ficou com tudo molhado. Quando não é incêndio, é alagamento”, reclama Mauro. “Isso também faz parte de um processo de adoecimento para as pessoas. Elas saem de um lugar em ruínas para mudarem para outro reformado, mas logo começam os problemas”, pontua Renata.

Uma jovem de braços cruzados olha para os lados enquanto a fotógrafa faz seu retrato. Aos fundos, um campo.
Renata Werner: preocupação com a saúde mental dos colegas. Foto: Ana Marina Coutinho (Coordcom/UFRJ)

De acordo com a PR-7, os reparos no bloco A estão sendo feitos pela própria empresa que realizou a reforma. Quanto ao bloco B, a previsão é que sua reedificação tenha início ainda neste ano. “Além disso, já iniciamos a elaboração de projetos para a realização de obras no térreo, que visam construir moradias para pessoas com deficiência, lavanderia, laboratório de informática, anfiteatro e área de lazer”, responde o pró-reitor Roberto Vieira.

A manutenção do alojamento é parte de um debate mais amplo sobre a necessidade de se consolidarem políticas de assistência estudantil e de permanência na universidade pública. Além da moradia, os graduandos precisam de apoio para alimentação, transporte, saúde, material de estudo, fruição cultural, entre outros itens básicos no processo de formação.

A V Pesquisa do Perfil Socioeconômico dos Estudantes, realizada em 2018 pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), revelou que 70% das pessoas que ingressam em uma graduação, em todo o país, vivem com renda de até 1,5 salário mínimo. Além disso, 60,4% cursaram o ensino médio em escolas púbicas e 51,2% se declaram pretos ou pardos. Na UFRJ, com 52 mil discentes matriculados em 175 cursos, os dados se aproximam da pesquisa nacional. Cerca de 60% possuem renda mensal per capita de até 1,5 salário mínimo, 59,7% são oriundos de escolas públicas e 16% não nasceram no estado do Rio de Janeiro.

Esse perfil indica que a política de cotas, criada a partir da Lei no 12.711/12, e a universalização do acesso por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tiveram efeitos positivos nas últimas décadas, alcançando parcela da população brasileira que antes não acessava o ensino superior. Entretanto, em tempos de austeridade fiscal, cortes orçamentários e política de desmonte das instituições públicas, o desafio é garantir a permanência dos estudantes, saudáveis e dispostos, dentro e fora da sala de aula.

Flor com caule e folhas verdes e pétalas amarelas. Ao fundo, desfocado, um prédio branco.
Foto feita pela estudante Fernanda Gabriela: "Gosto deste girassol que plantamos". Ao fundo, a Residência Estudantil.

Plantando na Moradia é uma iniciativa vinculada à Rede de Agroecologia da UFRJ, união de projetos e coletivos que articulam atividades de ensino, pesquisa e extensão em diversos territórios. Enquanto prática social e ciência, a agroecologia resgata modos de vida e saberes tradicionais, mantendo uma postura dialógica e relacional com a natureza.

Na edição nº 17, o Conexão UFRJ falou sobre a Rede, apresentando os primeiros resultados de um reflorestamento feito na favela do Dendê, na Ilha do Governador. Como os grupos que trabalham nessa perspectiva são plurais e dialogam com diferentes públicos, nosso boletim, nas próximas edições, seguirá abordando o tema, mergulhando em cada contexto.

Uma mão humana segura sementes de milho e feijão
Parcerias Para Viver Bem é uma série sobre sobre agroecologia. Foto: Ana Marina Coutinho (Coordcm/UFRJ)