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UFRJ ganha prêmio do WhatsApp para pesquisa sobre fake news

Coryntho Baldez

Edição 17 / Maio / Junho de 2019
Foto colorida de símbolos de redes sociais e aplicativos, como o Facebook e o WhatsApp
Foto: Pixabay

Uma enxurrada de notícias falsas vem circulando freneticamente no Brasil nos últimos anos por meio de aplicativos de mensagens instantâneas. Com cerca de 120 milhões de usuários no país, o canal preferencial para a difusão das chamadas fake news tem sido o WhatsApp.

Com a explosão do uso de novas plataformas digitais, a máquina da desinformação parece não ter freio e está atingindo de forma indiscriminada áreas como política, religião, cultura e educação. A repercussão do fenômeno na sociedade ganhou contornos tão alarmantes que tem suscitado pesquisas e ações no âmbito da universidade pública para monitorar e compreender a proliferação das fake news nas redes sociais.

A universidade tem como o seu principal desafio entender o tempo atual. Esse é o motivo da nossa existência”, afirma Alexandre Brasil Fonseca, professor do Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde (Nutes/UFRJ) e um dos vencedores do Prêmio de Pesquisa WhatsApp para Ciências Sociais – apenas 20 projetos foram selecionados entre os 600 submetidos por universidades do mundo inteiro. O objetivo do prêmio é desenvolver estudos que relacionem as ciências sociais e as fake news em plataformas digitais de comunicação.

"A equipe da UFRJ passará a compartilhar experiências e reflexões com pesquisadores e pesquisadoras de destacadas universidades, como Cambridge, Nanyang e Michigan", celebra o professor do Nutes.

Foto em preto e branco onde se lê: fake news.
Foto: Pixabay

A pesquisa coordenada por Fonseca irá analisar os valores e as justificativas que levam as pessoas a assimilarem e propagarem a desinformação, com foco em segmentos religiosos, como evangélicos, católicos, afro-brasileiros e também ateus. Os resultados serão divulgados em outubro deste ano.

O processo offline

A desinformação tem sido analisada principalmente pelo seu impacto na sociedade. Porém, segundo o pesquisador, é preciso pensar o processo offline que envolve o uso das redes sociais. “O Facebook [dono do WhatsApp] sabe bem o que acontece dentro da tela. Mas não sabe como as pessoas usam as redes no seu cotidiano, como se relacionam e como pensam. É algo que precisa ser investigado”, assinala Fonseca, que é doutor em Sociologia pela Univesidade de São Paulo (USP).

Segundo o docente, a ideia central do estudo é entender como a realidade social impacta e influencia o uso das plataformas digitais. Mas o que, de fato, levou a empresa a lançar a chamada para o prêmio foi o uso atípico da ferramenta em alguns países. O WhatsApp, a princípio, foi pensado como um espaço de encontro e de diálogo entre pessoas que se conhecem. “Ele seria a sala de estar da nossa casa, enquanto o Facebook seria a praça pública”, resume.

Foto colorida de Alexandre Brasil Fonseca, professor do Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde e um dos vencedores do Prêmio de Pesquisa WhatsApp para Ciências Sociais.
Alexandre Brasil Fonseca, professor do Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde (Nutes/UFRJ) e um dos vencedores do Prêmio de Pesquisa WhatsApp para Ciências Sociais. Foto: Diogo Vasconcellos

De acordo com o pesquisador, chamou a atenção do Facebook o fato de o WhatsApp estar sendo usado para viralizar notícias em países da América Latina e da África, principalmente. “Isso era algo não imaginado na arquitetura da ferramenta. Os técnicos não pensaram a estrutura do WhatsApp para uso de viralização”, frisa.

Por que segmentos religiosos?

A identificação de sites religiosos como um dos principais canais de veiculação de fake news durante o processo eleitoral de 2018 foi decisiva para consolidar o tema do estudo. Mas, como pesquisador, Fonseca já mostrava interesse pelas relações entre mídia e religião.

O principal elemento, segundo ele, é o que a religião traz como sua característica principal: a organicidade. Entre os segmentos religiosos, as trocas simbólicas e de vivências se dariam de forma mais rápida porque tais grupos se reúnem com regularidade. “Eu consigo entender alguns processos sociais melhor olhando para esses segmentos do que para outros. Isso possibilita ter percepções mais rápidas de como as relações sociais offline se expressam online”, explica.

Ao final da pesquisa, será montada uma atividade pedagógica voltada para a formação em mídias digitais e desinformação. A ideia é organizar um curso de cerca de cinco horas, com materiais audiovisuais e impressos que serão disponibilizados para quem tiver interesse em conhecer o assunto. “Esse curso seria uma atividade de formação para pensar o que representa a desinformação, o que é e quais os seus efeitos práticos”, completa.

O aumento dos ataques à universidade pública

E se restava alguma dúvida de que as pesquisas sobre fake news estão mesmo na ordem do dia, uma nova onda de ataque às universidades públicas tratou de dissipá-la. O sistema de monitoramento WhatsApp Monitor, criado por pesquisadores brasileiros, detectou um aumento expressivo de mensagens falsas contra as instituições federais de ensino superior logo após o bloqueio de cerca de 30% do seu orçamento de custeio e investimento, na primeira quinzena de maio.

Fabrício Benevenuto, um dos coordenadores do sistema e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), constatou que as mensagens continham imagens de estudantes nus e de capas de teses e dissertações supostamente defendidas em universidades federais. Em declaração à Folha de S. Paulo, o pesquisador disse que foi olhar o sistema e ficou surpreso com as “várias mensagens sobre o tema que apareceram, do nada”.

Marianna Zattar, docente da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis (Facc/UFRJ) e pesquisadora do tema, acredita que há uma relação entre o bloqueio orçamentário e a torrente de fake news difundidas pelo WhatsApp para desacreditar a universidade pública perante a sociedade.

Foto colorida de Mariana Zattar, docente da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis.
Marianna Zattar, docente da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis (Facc/UFRJ). Foto: Imagem Youtube.

“As mídias sociais como o WhatsApp são meios de comunicação que possibilitam uma ampla participação na produção, disseminação e uso da informação e, nesse contexto, podemos indicar que há relação entre o compartilhamento de desinformação, ou seja, informação falsa, em formato de notícias falsas, as fake news”, avalia.

Segundo ela, os ataques que utilizam a desinformação com a finalidade de promover o ódio são chamados de “mal-information” e representam uma tentativa de retirada da legitimidade de algo ou alguém.

Na avaliação da pesquisadora, a universidade pública brasileira, de modo geral, está buscando compreender o fenômeno das fake news. “Os estudos, pesquisas e práticas no âmbito da produção do conhecimento sobre desinformação nas universidades públicas vêm ocupando um espaço significativo nos últimos anos e assumem diferentes formas, formatos e terminologias”, observa.

A docente acredita, contudo, que os esforços de pesquisa precisam ser estimulados para que sejam mais explorados em diferentes contextos e comunidades de aprendizagem.

Marianna também elogiou a iniciativa da UFRJ de criar um canal de denúncia de fake news (ver box abaixo) em seu portal na internet. Para a professora, a perspectiva social da informação exige solidariedade e corresponsabilidade nas práticas de produção, uso e compartilhamento da informação.

“Nesse sentido, canais de denúncia e de aprendizagem são essenciais para que possamos evitar informações falsas e perceber que a informação é antes de tudo uma construção social”, conclui.

Dois meses após o incêndio no Museu Nacional, ocorrido em 2 de setembro de 2018, a UFRJ lançou um canal para denúncias de fake news difundidas contra a Universidade. Um formulário online permite o envio pelos usuários de conteúdo que tenha sido compartilhado em arquivo de texto, imagem ou vídeo e sobre o qual pese a suspeita de ser falso.

Na época, a UFRJ precisou ser ágil nas respostas para as questões suscitadas pela imprensa e sociedade e teve que lidar com a novidade inconveniente das fake news, de acordo com o servidor da Universidade Vitor Simão, coordenador do canal.

“As informações falsas atingiram em cheio a UFRJ naquele período turbulento. Na ocasião, os ataques tiveram como alvo a sua autonomia administrativa, em primeiro lugar, bem como o caráter público e gratuito das universidades públicas”, rememora.

Simão salienta que o fenômeno da convergência midiática contribuiu para que falácias tivessem longo alcance, sendo o caso do Banco Mundial o mais emblemático. “Uma fake news oriunda de um perfil privado numa rede social pautou a grande imprensa, que, de maneira atabalhoada, a transformou em notícia antes mesmo de checar a suposta informação”, critica.

O servidor da UFRJ esclarece que os casos de notícias falsas que configuram possíveis crimes contra a instituição ou a comunidade universitária são encaminhados para providências jurídicas e administrativas.

Ele lembra ainda que, quando a Coordenadoria de Comunicação (Coordcom/UFRJ) buscou parceiros na própria instituição para a iniciativa, a ideia era criar não apenas um canal de denúncias, mas uma estrutura robusta de monitoramento e análise de mídias.

Apesar da presença da palavra denúncia no chamamento à participação da comunidade – prossegue Simão –, é importante ressaltar que a ferramenta funciona como um instrumento estratégico de comunicação social.

“Assim, a partir de elementos obtidos por meio da comunidade universitária, a UFRJ poderá avaliar, em conjunto com outros dados levantados, quais são os assuntos e temas mais relevantes que circulam sobre a instituição nessas novas redes”, completa.