Saúde

UFRJ tem o caminho para a cura do glaucoma

Ana Carolina Correia

Edição 19 / Setembro / Outubro de 2019
Em plano detalhe, o rosto de um homem branco, grisalho e com barba está voltado para cima. Na mesma cena, uma mão segura seus óculos e ao mesmo tempo puxa a pálpebra superior de um dos seus olhos, enquanto outra mão aperta uma bisnaga pequena e verde, fazendo o movimento de despejar godas de colírio em seus olhos.
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom (Agência Brasil)

Um grupo de pesquisadores do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF) e do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) encontrou um novo caminho que pode vir a ajudar na cura de um dos males que mais resultam em perda de visão no mundo: o glaucoma. A pesquisa, publicada na revista Development, busca estudar protocolos inovadores para o tratamento da doença.

Mariana Silveira, professora do IBCCF e líder do grupo de pesquisa, conta que o projeto começou a partir do interesse em estudar mecanismos celulares e moleculares do desenvolvimento do sistema nervoso e de compreender como um fator de transcrição, o Klf4, pode atuar na geração de células específicas da retina.  O estudo focou, então, nas células ganglionares, que formam o nervo óptico e permitem que a informação seja levada ao cérebro. “Mostramos que esse fator sozinho, se superexpresso na retina, leva à geração de células ganglionares fora de sua janela temporal. Isso abre possibilidades quanto ao seu uso em terapias para algumas doenças degenerativas da retina, como o glaucoma”, explica.

A degeneração das células ganglionares no glaucoma afeta milhões de pessoas e leva a perdas visuais irreversíveis. Os tratamentos disponíveis podem controlar a progressão da doença, mas a recuperação da visão requer não só a prevenção da morte celular, mas também a regeneração das células.

Foi com esse objetivo que a equipe de Silveira trabalhou diretamente com ratos recém-nascidos e identificou que, com a superexpressão do fator de transcrição, as células progenitoras não criaram predominantemente células fotorreceptoras, mas sim ganglionares, que são geradas naturalmente apenas no período embrionário. “Menos de dois dias após a superexpressão, um programa molecular semelhante ao que é responsável pela geração das células ganglionares durante o desenvolvimento embrionário da retina foi ativado”, afirma a pesquisadora.

Cinco mulheres e um rapaz posam para a foto, olhando para a câmera e sorrindo. Mariana Silveira, a entrevistada, está no centro da imagem.
Mariana Silveira com sua equipe de pesquisadores. Foto: Acervo pessoal

O estudo ainda é considerado de base, mas já provou que a geração dessas células pode ser reativada. A descoberta permite que novas pesquisas sejam feitas para melhorar o protocolo e garantir que as células ganglionares induzidas de fato adquiram propriedades de neurônios maduros. Os pesquisadores podem, também, expandir essa estratégia para outras células, como as gliais, cuja habilidade de regenerar a retina se perdeu em mamíferos, mas permanece em outros organismos como nos peixes. “Elas respondem ao dano, readquirem as características de progenitores multipotentes e geram todos os tipos celulares da retina, levando à recuperação morfológica e funcional. Reativar esse potencial é, portanto, um importante alvo de investigação no qual pretendemos investir”, descreve.

Porém, a investigação corre riscos

Segundo Silveira, o principal empecilho para a pesquisa não é científico, mas econômico e político. A equipe foi formada por outros pesquisadores da UFRJ, os professores Rafael Linden e Rodrigo Martins, além de uma colaboradora da Alemanha, e por vários estudantes que estão ameaçados e desestimulados pelo atual mercado para cientistas no Brasil. “As perspectivas atuais são pouco atraentes para que talentos queiram se manter ou retornar ao país. Tivemos talentosos estudantes que integraram a equipe e já procuraram melhores condições no exterior. Nossos programas de pós-graduação e grupos de pesquisa já estão sofrendo as consequências da queda brutal de investimento observada nos últimos anos”, avalia.

A professora afirma que o impacto em médio e longo prazo pode desestruturar totalmente os institutos de pesquisa e as universidades. “Nossos governantes precisam se convencer da bandeira levantada pelos cientistas: ciência não é gasto, é investimento”, defende.

Embora a dificuldade seja grande, o grupo está buscando diversificar as linhas de pesquisa e ampliar a interação com outros pesquisadores. “Minha expectativa é que isso possa fazer com que projetos aprovados por meio de colaborações internacionais assim como a manutenção de redes colaborativas locais nos auxiliem a manter a qualidade do trabalho”, afirma, completando que as portas do laboratório estão abertas para quem deseja pesquisar. “Minha esperança é que nossa comunidade científica una esforços para superar este período terrível e consigamos manter nossos jovens estudantes motivados. Mas, sem contrapartida do governo, essa tarefa é muito dificultada”, concluiu.