Sociedade

A rebelião das mulheres nas ruas e nas redes

Isabela Izidro

Mulher cabelo azul
Ilustração: Zop

Décadas depois dos protestos pela liberação sexual nos anos 1960 (marcados pela ditadura militar) e mais de um século após a campanha pelo direito ao voto – causas que uniram gerações inteiras de mulheres –, um feminismo novo e multifacetado está emergindo nas ruas, nos blogs e nas redes sociais.

E para o que isso nos alerta? A presença de uma nova conjuntura de opressão e conservadorismo?  Estaríamos em pleno século XXI vivenciando um retrocesso? Ou quem sabe uma estagnação? Para Anna Marina Madureira, professora adjunta do Departamento de Ciência Política da UFRJ e coordenadora do Laboratório de Estudos de Gênero (LEG/UFRJ), o principal motivo do fortalecimento do feminismo nos últimos anos está na persistência da violência. “Tanta coisa mudou, tantos direitos foram conquistados, mas a violência contra a mulher persiste, nada evoluiu nesse contexto”, lembrou a professora.

Do lar ou da luta?

A mulher sai de casa, frequenta a universidade, trabalha, chefia, torna-se essencial para o mercado de trabalho. Depois do expediente, ainda sai com as amigas, diz que não quer se casar e nem ter filhos e que seu único foco é a carreira. Dá pra imaginar o impacto que essa situação gera em uma sociedade que desde sua formação entende que, por definição, mulher nasce predestinada a ser “bela, recatada e do lar” e a satisfazer todos os desejos do sexo masculino? Houve avanço, mas ainda se está muito longe do ideal.

A mulher ainda enfrenta diversos níveis de opressão. Quando vai para o mercado de trabalho, por exemplo, percebe que a igualdade de gêneros é uma ilusão. No Brasil, as mulheres recebem salários 30% menores que os homens, mesmo ocupando os mesmos cargos, segundo estudo recém-divulgado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Além disso, a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no país, de acordo com dados de 2014 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Na política, o cenário não é diferente. A mulher sofre com a falta de voz e de representatividade. Em pleno ano de 2016, sobe ao poder um governo sem sequer uma ministra mulher. E, para Anna Marina, do ponto de vista simbólico, a primeira presidente mulher não conseguir terminar seu mandato é problemático.

“Além de Dilma ter sofrido muitas críticas de caráter sexista, ela leva consigo uma política de enfrentamento da mulher. A Secretaria das Mulheres, por exemplo, foi alçada a Ministério e agora, com a subida de Temer ao poder, deixa de existir. Toda uma política que vinha sendo construída do governo Lula para cá vem sendo desmontada rapidamente”, afirmou a professora.

Segundo Anna Marina, no Brasil, a representatividade da mulher na política é mais baixa até que em países do Oriente Médio. “O fato de você ter mulheres no poder também não garante representação. Você pode ter ali uma mulher fascista. Mas deve haver mulheres. Esse é o primeiro passo. A mulher precisa ocupar espaços, lutar pelo que acredita. Isso também é feminismo”, diz ela.

Minas da ECO: experiência bem-sucedida

É nesse contexto de “primavera das mulheres” e ascendência do movimento feminista que a Universidade, tanto pública quanto privada, torna-se um dos palcos principais dessa luta, uma vez que possibilita a reunião de militantes envolvidas com a causa.

São jovens criadas na era digital, com acesso a todo tipo de informação e menos predispostas a aceitar papéis sociais impostos a elas.

Para Anna Marina, a Universidade é um espaço fundamental na luta feminista de hoje em dia, com a presença de expressivos coletivos de mulheres. “Só a UFRJ tem vários. O espaço laico e de formação é muito propício para a luta feminista ser realizada. Ali as mulheres tem total liberdade para se relacionar entre si e fazer uma crítica bem embasada contra o patriarcado, partilhar suas experiências”, afirma a pesquisadora.

A UFRJ, como disse Anna Marina, caracteriza-se por possuir diversos coletivos de ideário feminista em seus campi, inclusive um de âmbito geral, que engloba toda e qualquer estudante mulher da universidade que se interessar pela causa.

Karla Corrêa, estudante da Escola de Comunicação (ECO/UFRJ) e participante ativa do coletivo de mulheres “Minas da ECO”, explica que o grupo começou a partir de uma demanda muito grande por parte das alunas de Comunicação, que já acompanhavam o Coletivo de Mulheres Geral da UFRJ. “Algumas meninas sentiram essa necessidade de criar um grupo que atendesse de forma mais específica às situações vivenciadas pelas alunas de Comunicação, dentro e fora do campus. Foi aí que criaram esse grupo, ao qual tanto uma aluna já formada, uma veterana do último período ou uma caloura são bem-vindas. Não há restrições”, diz Karla.

Alunas no sofá
Da esq. p/ dir: Juliana Oliveira, Taila Lima, Mariana Souza e Karla Corrêa  fazem parte do “Minas da ECO”

Para a aluna, a ideia aproximou muito as estudantes, criou vínculos muito fortes e se tornou um veículo de informações e desabafos. “Você é adicionada logo de cara ao grupo, assim que entra na faculdade. Nele são discutidos desde os diferentes casos de assédio que ocorrem na Universidade, até questões e problemas pessoais. Trata-se de um grupo de convívio mesmo, a sororidade* e o apoio ali dentro são muito grandes. O feminismo na Escola de Comunicação tem-se mostrado muito forte, e isso me deixa extremamente feliz”, desabafou Karla.

A causa vem ganhando grande visibilidade dentro da Universidade em geral, com polos bem espalhados – e que não deixam de se comunicar entre si – e ideais cada vez mais fortes. Tanto é que o Coletivo Geral das alunas organizou no dia 18 de maio a Primeira Assembleia Geral de Mulheres da UFRJ, para debater assuntos ligados ao feminismo, em âmbitos universitário e geral.

No fim, tudo indica para uma era de mudanças e luta. Uma era em que, em todos os âmbitos, a busca por uma sociedade na qual “mérito” deixe de ser apenas uma palavra simbólica e passe a ter mais valor que a diferença de gêneros. Mulher nenhuma pretende andar para trás.

*Sororidade - União e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo, para alcançar objetivos em comum.

“Ninguém nasce mulher; torna-se mulher”. A frase proferida pela célebre filósofa francesa Simone de Beauvoir, citada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e motivo de muitas polêmicas no ano de 2015, evidenciou pela primeira vez na história que a condição de mulher não é algo natural, mas sim uma construção social, histórica e cultural. Segundo a autora do livro O segundo sexo, foi exatamente assim, durante anos – sem permissão para perceber, refletir, observar e participar – que a existência da mulher passou a ser socialmente vista e aceita como vinculada ao homem.

“O patriarcado é muito antigo, vem antes até do Capitalismo. Quando a ordem burguesa se institui na Europa, ela já se institui a partir da exclusão das mulheres. A medicina francesa no século XVIII descobre então a existência de dois sexos e trabalha esse conceito em cima da ideia de sexos opostos. Com isso, vem a criação do estereótipo feminino, aquela ideia da fragilidade, docilidade da mulher, tudo vem daí”, contextualiza Anna Marina, professora adjunta do Departamento de Ciência Política da UFRJ e coordenadora do Laboratório de Estudos de Gênero (LEG/UFRJ).

Em um processo histórico que perpassa uma sociedade patriarcal, religiosa e conservadora, centralizada na figura masculina, a suposta inferioridade do sexo feminino é justificada por diferentes interpretações.

Foi diante desse contexto que a luta feminista ganhou força. A busca por igualdade de direitos e liberdade de expressão das mulheres no Brasil, assim como em muitos outros países no mundo, vem como resposta às condições de opressão determinadas pela sociedade.

Estudante de Comunicação da UFRJ e integrante do coletivo de mulheres “Minas da ECO”, Karla Corrêa credita o avanço do feminismo nas últimas décadas a uma maior emancipação das mulheres, que tem cada vez mais acesso à informação. “A Universidade abre um espaço importante para essa luta, pois conta com pessoas mais críticas e abertas a novas informações, além de fornecer seu apoio. A Escola de Comunicação, por exemplo, sempre promove palestras sobre diversos assuntos, procurando informar melhor seus alunos. É um espaço que busca entender e integrar as chamadas minorias.”

Para a estudante, a mulher já conquistou espaços cruciais na sociedade. Mas, em sua opinião, a maior urgência está na necessidade de integração das mulheres negras e da periferia, tanto nas universidades como no mercado de trabalho.

Segundo Karla, a realidade dessas mulheres é totalmente distinta e ainda mais complicada. “É preciso fazer um recorte, existem muitas necessidades diferentes. Cada mulher sofre um tipo de opressão. A sororidade com essas mulheres tem que existir. Precisamos lutar para mudar essa realidade.”

A estudante ainda disse que a mulher não é bem representada na política. “A misoginia bate muito forte quando uma mulher consegue conquistar poder, chegar a um lugar antes tido apenas por homens. Vimos isso agora, com o processo de impeachment de Dilma. A forma machista e sexista que a mídia e a sociedade em geral falava dela”, observa.

Ela defende que o assédio verbal se torne crime também. “O corpo da mulher é diversas vezes sexualizado e vandalizado nos transportes públicos, nas ruas. A mulher sai de casa sem saber se irá voltar. E quando vai fazer sua denúncia, ainda tem sua fala posta em julgamento, dúvida. Isso mexe não somente com a segurança física, mas com a autoestima e o emocional da mulher”, diz.

Karla Corrêa luta para que a mulher seja ouvida e possa escolher o que fazer com o próprio corpo e com a própria vida. “Nem toda mulher precisa seguir aquele arquétipo de fragilidade. Nem todas elas precisam ser ‘belas, recatadas e do lar’. Mas se assim preferirem, tudo bem também. Cada mulher tem sua personalidade, o seu jeito. Nem todas precisam optar pelo mesmo estilo de vida”, concluiu a estudante.