Pesquisa

Casa da Pedra facilita estudo de rochas do pré-sal

Jaqueline Ruiz

A Casa da Pedra, no Ceará, abrigará um projeto de pesquisa do Instituto de Geociências da UFRJ. A nova construção terá capacidade para abrigar mais alunos e permitirá maior aproximação entre os residentes no município e a comunidade universitária.
A Casa da Pedra terá capacidade para abrigar mais alunos do Instituto de Geociências da UFRJ. Foto: Divulgação

O projeto de pesquisa e incentivo à geoconservação do Instituto de Geociências (Igeo) da UFRJ, que existe há mais de 50 anos no Ceará, agora tem local fixo em Inhumas, bairro do município de Santana do Cariri.

O terreno foi doado pela prefeitura em agosto de 2014 e, no dia 23 de junho deste ano, a Casa da Pedra foi inaugurada com festa. Autoridades municipais, estaduais e federais compareceram ao ato que teve apresentação de coral e quadrilha junina.

A cerimônia de inauguração contou com a presença de Roberto Leher, reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que destacou a importância da Casa da Pedra como um espaço de convergência entre pesquisadores, estudantes e comunidade local.

A nova construção terá capacidade para abrigar mais alunos e permitirá uma aproximação maior entre os residentes no município e a comunidade universitária.

Rochas do pré-sal podem ser encontradas no Ceará

O município de Santana do Cariri chamou a atenção dos pesquisadores da UFRJ porque a área está assentada sobre as rochas da Bacia Sedimentar do Araripe, local de grande riqueza paleontológica.

Lá estão conservadas rochas características do período Cretáceo, que marca o surgimento do Oceano Atlântico e a consequente formação de depósitos com grande acúmulo de sal.

Rochas similares às encontradas nos resevatórios do pré-sal.
Rochas similares às encontradas nos resevatórios do pré-sal. Fonte: Portal Brasil

Apesar de as rochas da Bacia de Campos, no Rio de Janeiro, terem semelhanças com as de Araripe, elas estão completamente imersas, o que dificulta o estudo sobre o sal. Isso não acontece com as rochas do pré-sal no Nordeste, que se tornaram uma prioridade de pesquisa para o Igeo/UFRJ.

Pedra regional é utilizada na construção da Casa da Pedra

A casa possui estrutura de aproximadamente 78 leitos para abrigar os estudantes e pesquisadores das áreas de Paleontologia, Geologia e Meteorologia que forem ao município realizar pesquisas científicas.

Além da UFRJ, outras seis universidades utilizam o local em parceria com o Igeo: as universidades federais do Ceará, de Pernambuco, do Piauí, do Cariri, a Universidade Regional do Cariri e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Todo o imóvel foi construído com a pedra cariri, na intenção de valorizar seu uso no bairro. “Apesar de ser uma pedra nobilíssima, os moradores consideram uma desqualificação ter uma casa de pedra. Como o tijolo é caro e é difícil ter argila nesse local, casas rebocadas são vistas como um diferenciador social. Nós queremos demonstrar o contrário, que você ter uma casa de pedra pode ser um enorme prestígio social e um meio de estar integrado ao seu espaço”, explica Ismar Carvalho, professor do departamento de Geologia da UFRJ.

“Educação pela pedra”

Inspirado pelo poema “Educação pela pedra” (ver ao final), de João Cabral de Melo Neto, o projeto do Igeo/UFRJ procura integrar o ensino paleontológico – para a graduação, a pós-graduação, a extensão e a pesquisa – à proteção da diversidade geológica e à prática da cidadania.

Para o professor Ismar Carvalho, a experiência de ir a campo é transformadora para os alunos, que constroem uma visão crítica do mundo ao entrarem em contato com uma realidade social e cultural diferente da que estão habituados nas grandes cidades.

Ismar Carvalho, professor do departamento de Geologia da UFRJ.
Ismar Carvalho, professor do departamento de Geologia da UFRJ. Foto: Nathalia Werneck (Coordcom / UFRJ)

Eles visitam as pedreiras, procuram entender a vinculação com o setor produtivo, aprendem o contexto do surgimento do óleo e do gás e também o significado das rochas para a paisagem do sertão e para a população local.

“Colocar os nossos alunos no interior do Nordeste é confrontá-los com outra perspectiva de vida e valores. Por exemplo, no município de Santana de Cariri há um problema de falta d`água. Isso faz com que esse recurso natural seja muito valorizado na região. É completamente diferente aqui na cidade grande, onde o problema é de excesso d`água quando chove demais”, diz o professor.

O aluno de Geologia Jean Braga, que fez a viagem ao Nordeste há cinco anos, quando estava no 2º período letivo, conta que na época a sua turma precisou se hospedar num hotel, já que ainda não havia um espaço próprio para o projeto que acolhesse grande número de pessoas. Um problema resolvido agora, com a construção da Casa da Pedra.

“É muito bom conhecer pessoas de outros estados. A cultura é bem diferente e a própria viagem acaba sendo um ensinamento. Talvez a parte mais importante, que não seja a didática, é a experiência de estar em contato com outra realidade”, sublinha Braga.

Exercício de cidadania e respeito ao meio-ambiente

A relevância da Casa da Pedra da UFRJ, portanto, perpassa todo o ensino da Geologia. O projeto incentiva o respeito à cidadania nos jovens e estimula a proteção da diversidade geológica. E ainda reforça aspectos importantes na formação do estudante, como o trabalho de campo, a percepção da relevância da utilização racional dos recursos hídricos e a possibilidade do uso de matrizes renováveis de energia.

Com a construção do imóvel, a expectativa é que esses objetivos sejam plenamente alcançados em breve.

A educação pela pedra

(João Cabral de Melo Neto)

“Uma educação pela pedra: por lições;

para aprender da pedra, frequentá-la;

captar sua voz inenfática, impessoal

(pela de dicção ela começa as aulas).

A lição de moral, sua resistência fria

ao que flui e a fluir, a ser maleada;

a de poética, sua carnadura concreta;

a de economia, seu adensar-se compacta:

lições da pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.

“Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,

e se lecionasse, não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra,

uma pedra de nascença, entranha a alma.”

A pedra do cariri marca a identidade do município. Seu sentido é econômico, industrial, cultural, social e religioso. Pode ser encontrada no calçamento das praças, na construção das casas, no trabalho nas pedreiras e nos artesanatos em pedra.

A pedra influencia tanto no uso e ocupação da terra como na religiosidade regional.

Em 1941, Benigna Cardoso da Silva, nascida em Santana do Cariri, foi morta aos 13 anos de idade quando ia buscar água em uma pedreira, por um homem chamado Raul Alves, que a assediava constantemente e tentou estuprá-la.

O episódio gerou comoção na região pela jovem, que se tornou a primeira beata do Ceará e é considerada uma mártir. A pedra do cariri foi utilizada na construção da capela e do altar de Benigna.