Estudante

A batalha contra o racismo na universidade

Isabela Izidro

Foto de integrante do grupo Afrocena-Teatro Guerrilha, que se apresentou no campus da Praia Vermelha.
Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

Segundo pesquisa divulgada em 2 de dezembro pelo IBGE, cerca de 12,8% dos negros entre 18 e 24 anos chegaram ao nível superior em 2015. No ano de 2005, esse número era de apenas 5,5%. Uma análise superficial dos dados leva a um olhar otimista com as conquistas obtidas pelas políticas afirmativas.

No entanto, se comparado com a população branca, o número equivale a menos da metade do percentual de jovens brancos que ingressaram na universidade no mesmo período: 17,8% em 2005 e 26,5% em 2015.

Levando-se em conta o fato de que os negros representam cerca de 53% da população total brasileira, a proporção mostra-se, na verdade, desequilibrada e fora do padrão ideal.

“Ações foram positivas, mas é preciso avançar mais”

De acordo com Luciene Lacerda, psicóloga e coordenadora do Laboratório de Ética nas Relações de Trabalho e Ensino (Laberte) da UFRJ, apesar dos avanços, o espaço do negro na universidade ainda é extremamente precarizado.

Foto da professora Luciene Lacerda, psicóloga e coordenadora do Laboratório de Ética nas Relações de Trabalho e Ensino da UFRJ.
Professora Luciene Lacerda, psicóloga e coordenadora do Laboratório de Ética nas Relações de Trabalho e Ensino (Laberte) da UFRJ. Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

“A evolução dos números é realmente bastante positiva, as ações afirmativas devem ter continuidade, mesmo após sua expiração. Devem-se ser levantadas novas questões. Mas ainda estamos muito longe do ideal. Considerando a parcela de negros na população brasileira, esses percentuais ainda são muito baixos”, diz.

A professora lembra que as políticas afirmativas são uma conquista e foram discutidas durante anos pelo movimento negro, tendo grande relevância na configuração da sociedade.

“Afinal de contas, é dentro da universidade que se constroem as políticas públicas. É de fato importante que os professores olhem para os alunos hoje e consigam ver alguma coisa ao menos um pouco mais próxima do que é a população brasileira”, assinala.

Para Luciene, a universidade se cristalizou, historicamente, como um espaço de cunho elitista e segregacionista. Com o tempo, a voz da comunidade universitária ganhou força e a conscientização social e as políticas públicas para a educação avançaram, transformando a universidade num espaço um pouco mais igualitário e democrático.

“A universidade foi feita no ano de 1300 para nivelar a elite com a igreja. São situações muito distantes da população negra. Quando a universidade foi constituída no Brasil, na década de 1960, ela também foi vista sob os mesmos parâmetros, não havia espaço para a discussão racial. Esse contexto foi determinante e traz consequências até hoje”, analisou.

Afrocena-Teatro Guerrilha: coletivos negros na UFRJ ganham visibilidade

Na UFRJ, o surgimento de inúmeros coletivos negros mostra que a questão racial vem ganhando maior destaque nos últimos anos.

Um deles é o Afrocena-Teatro Guerrilha, um projeto de teatro experimental, totalmente independente, composto por mais de 50 integrantes de diversas idades, cursos e lugares do Rio de Janeiro.

Jenifer Novaes, 25 anos, é aluna de Ciências Sociais, pertence ao Afrocena e foi uma das responsáveis pela organização do primeiro sarau do coletivo, no campus da Praia Vermelha, Urca, que aconteceu no dia 1º de dezembro.

Foto de Jenifer Novaes e Evelyn Galieta, organizadoras do evento Afrocena-Teatro Guerrilha.
Jenifer Novaes e Evelyn Galieta, organizadoras do evento Afrocena-Teatro Guerrilha. Foto: Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

Durante o sarau, ocorreram oficinas de turbante, rodas de conversa sobre o espaço do negro na produção de arte e o racismo na sociedade brasileira, performances artísticas, teatros com a temática de autoafirmação racial (como a peça Menina Bonita, dirigida por Beatriz Oliveira, diretora teatral formada na UFRJ e integrante do grupo Afrocena) e até mesmo uma festa de encerramento.

“O Afrocena ganhou uma abrangência e um alcance muito grande, maior até que muitos projetos institucionais. O Sarau foi mais uma concretização de todo o nosso trabalho. Temos oficinas do nosso coletivo todas as terças e quintas, das 13h às 16h, e o nosso objetivo é continuar fomentando a arte preta dentro da universidade, construir o nosso espaço, ganhar cada vez mais visibilidade”, destaca.

Jenifer conta que o projeto foi idealizado pela “Rainha Timbuca”, atriz, cantora, produtora e estudante de Direção Teatral na UFRJ.

“Ela é negra e ao entrar na UFRJ sentiu que não apenas o espaço da Praia Vermelha, mas de toda a universidade caracterizavam-se como espaços embranquecidos e viu a necessidade, diante disso, de trazer alguma coisa preta pra esses lugares. A ideia é garantir um ambiente voltado para os pretos e fazê-los terem acesso a uma experiência nova, totalmente diferente, por meio da arte, de uma maneira completamente ‘racializada’.”

“A arte fortalece a identidade negra dentro da universidade”

O sarau foi marcado pela presença de uma plateia bastante diversificada, com alunos de diferentes cursos e idades, estendendo-se para muito além do público negro. Todos paravam para olhar.

Foto da oficina de turbante no primeiro sarau do Afrocena.
Oficina de turbante no primeiro sarau do Afrocena. Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

O alcance do evento mostra a possibilidade e a importância de se estabelecer um diálogo entre esses coletivos e a comunidade universitária, por meio de discussões consideradas de extrema relevância para a sociedade, como é o caso do racismo.

“Me envolver nessa questão artística foi um desafio. A arte ocupa um espaço central em nossa sociedade, ela constrói e fortalece a identidade negra dentro dos espaços. O povo negro tem uma ancestralidade residente na música, na pintura, na decoração de tecidos de uma forma bastante distinta de sociedades europeias, asiáticas”, comparou Jenifer.

Segundo a estudante, o brasileiro em si é um povo muito criativo, e é importante haver espaços de estímulo à sua produção artística: “Projetos como o Afrocena funcionam como um start para a construção de uma arte mais igualitária no futuro”.

Luciene Lacerda concorda e ressalta que a arte se configura como uma espécie de língua universal.

“Essa circunstância deve, de certa forma, ser tratada de forma lúdica. Mas é de extrema importância que se possa integrar outros aspectos da vida teórica dentro da universidade. A cultura e a arte chegam a todos, atingem todo o tipo de público, tem uma capilaridade muito importante para a difusão e o fomento da discussão. Acho fundamental a existência de grupos como o Afrocena, a troca e a soma de informações com a sociedade é muito grande,”

No entanto, segundo a coordenadora do Laberte, as iniciativas dos estudantes negros são muitas vezes são questionadas, e isso não é nada fácil para eles.

“A constituição de coletivos negros se configura como um autoacolhimento, uma autoproteção, uma forma de eles discutirem entre eles determinados temas importantes e conseguir levar esse debate para dentro da instituição.”, completou.

“Universidade ainda é, muitas vezes, conservadora e tradicional”

De acordo com Jenifer, o objetivo dos integrantes do Afrocena vai muito além dos muros da UFRJ. O intuito, segundo ela, é justamente descobrir formas de levar seus conhecimentos para um âmbito externo ao universitário.

Foto de cordel com cartazes pendurados contendo mensagens contra o racismo.
A arte do Afrocena ocupou o campus da Praia Vermelha. Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

“A universidade se propõe a devolver para a comunidade aquilo que ela produz. E é justamente essa a nossa intenção, quebrar barreiras, trazer um retorno do nosso trabalho para a sociedade em si. Nosso objetivo é que o preto represente seus 53% da população em todos os espaços. Não somente nas cadeias e como estatística no número de assassinatos que ocorrem todos os dias, mas também na televisão, no teatro, na música, na dança, nas passarelas”, frisa.

Cada passo parece essencial e a mudança dentro do âmbito universitário também está presente nas preocupações do grupo. Para a estudante de Ciências Sociais, a UFRJ ainda se configura, muitas vezes, como um espaço de caráter extremamente conservador e tradicional.

“Por mais que exista o sistema de cotas e os negros estejam efetivamente entrando nas universidades, a gente chega aqui e se depara com currículos extremamente eurocêntricos, em qualquer área, em todos os cursos. Dificilmente temos acesso à literatura africana ou latina, muito menos de autores negros”, explica.

Para Jenifer, o racismo ainda está muito presente na universidade, na maioria dos casos de forma velada, o que acaba tornando-o, muitas vezes, invisível diante do olhar de algumas pessoas.

“Em outras situações, como no caso do Diego, [estudante negro morto dentro da Cidade Universitária], ele infelizmente acaba se mostrando de forma mais explícita. Vivemos um momento de caos em nosso país, de crise política e ataque aos direitos da sociedade e quem vai mais sofrer com tudo isso é quem mais sempre sofreu, o preto, o pobre”, lamenta.

Segundo a professora Luciene Lacerda, o Laberte está disponibilizando uma disciplina no curso de Defesa e Gestão Estratégica Internacional, chamada “Populações de grupos oprimidos, relações ético-raciais e políticas de Estado”, que tem suscitado cada vez mais entre os estudantes a procura e a discussão a respeito da temática do preconceito e da discriminação racial.

“Trata-se de uma forma positiva de incluirmos essa discussão dentro do âmbito universitário. Estamos desenvolvendo inúmeras conversas junto à gestão da universidade com a intenção de produzir cada vez mais ações que fomentem discussões dentro da UFRJ a respeito da violência, incluindo e dando enfoque para as questões que envolvem o racismo”, concluiu a professora.