Pesquisa

Burocracia e alto custo são desafios para a ciência brasileira

Jaqueline Ruiz

Foto de uma pesquisadora examinando elementos em um microscópio.
Foto: Agência Fapesp

Aconteceu no dia 3 de novembro, no Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE/UFRJ), a palestra Universidade e os Desafios da Ciência Brasileira, promovida pelo Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. A iniciativa faz parte de uma série de diálogos universitários que têm por objetivo discutir ciência, cultura e sociedade.

O evento foi moderado por Julio Scharfstein, professor do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF/UFRJ), e contou com a presença de Luis Davidovitch, do Instituto de Física (IF/UFRJ) e da Academia Brasileira de Ciências; Renata Meirelles, do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes (IMPG/UFRJ); e Otávio Velho, do Departamento de Antropologia do Museu Nacional/UFRJ e membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Entraves para importar material e custo alto são problema

A burocratização da pesquisa científica é um dos principais empecilhos encontrados pela ciência, na avaliação de Luis Davidovitch e Renata Meirelles. Estudos acabam sendo adaptados, adiados ou mesmo abandonados devido ao tempo de espera, à lista de procedimentos exigidos na importação de material de pesquisa e ao alto custo para importar.

De acordo com os pesquisadores, o atraso causado pela burocracia compromete os avanços nas pesquisas que trariam impactos na vida da sociedade, assim como impede o Brasil de ser cientificamente competitivo.

A publicação de junho de 2014 da revista Nature sobre o ranking de países na área científica apontou o Brasil como um dos menos eficientes. Dos 53 países avaliados, o país ficou em 50° lugar.

Em 2013, o Brasil totalizou 670 artigos publicado em revistas especializadas, com um gasto de US$30 bilhões, enquanto a Arábia Saudita, primeira colocada, publicou 288 artigos gastando cerca de US$500 milhões.

PEC 55: congelar investimentos vai piorar situação

“A questão da burocratização é uma barreira. Em um momento em que a gente tem verbas reduzidas, se torna ainda mais. O processo de importação é caro e trava a produção cientifica”, disse Renata Meirelles. A pesquisadora se refere à PEC 55 (antiga PEC 241), que vai congelar os gastos com Educação por 20 anos, afetando diretamente a produção científica.

Foto de Luis Davidovitch, professor do Instituto de Física (IF/UFRJ).
Luis Davidovitch, professor do Instituto de Física (IF/UFRJ) e membro da Academia Brasileira de Ciências. Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

Davidovitch ressaltou ainda que a burocratização da pesquisa o faz sentir falta de um ambiente que respire ciência e cultura nos corredores da instituição.

Para ele, jovens cientistas têm sido afetados pelo excesso de exigências e de burocracia da pesquisa científica. Esse processo acarreta sobre eles uma pressão de publicar o maior número possível de artigos, e assim subir na carreira, em detrimento da reflexão e da paixão pela pesquisa.

“Ciência não é só publicar, é se entusiasmar e discutir a todo o momento”, enfatizou. Caberia, então, aos cursos instigar a curiosidade do estudante durante a transmissão de um conhecimento que pensasse a ciência em conjunto com as questões que desafiam a sociedade.

Combater qualquer boicote ao conhecimento científico

E é justamente o distanciamento da ciência com a sociedade, na opinião de Otávio Velho, que enfraquece politicamente a comunidade científica no país. Para ele, incorporar outros atores na discussão científica tornaria a ciência mais reconhecida, e isso pôde ser percebido no amplo protesto contra o desaparecimento do Ministério da Cultura.

Foto de Otávio Velho, professor do Departamento de Antropologia do Museu Nacional da UFRJ.
Otávio Velho, professor do Departamento de Antropologia do Museu Nacional/UFRJ e membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Foto: Portal A ciência que eu faço

“É difícil nos comparar a Fernanda Montenegro ou Caetano Veloso, mas existe um contraste. Nós não conseguimos a retomada do Ministério da Ciência, eles sim”, lembrou Velho, ao mencionar a decisão do presidente Michel Temer de fundir o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com o Ministério de Comunicações (MC), em junho deste ano.

Para os expositores, sendo a UFRJ referência em Educação no país, a preocupação em se posicionar a favor do avanço do conhecimento científico e contra qualquer tentativa de boicotá-lo deve ser ainda maior.

“Nós temos que ter a consciência de discutir a médio e longo prazo. O papel da nossa Universidade tem que ser o de disseminar o conhecimento de modo que influencie nas políticas públicas. Como intelectuais, precisamos ter um papel importante no cenário nacional”, defendeu Davidovitch.