Extramuro

Mídia alternativa cresce e enfrenta “Golias” corporativos

Isabela Izidro

Ilustração de Golias representando a mídia e impondo as suas ideias ao consumidor de notícias.
Ilustração: Zop

A invenção da impressão tipográfica por Guttemberg, no século XV, deu início à era da comunicação de massas. A partir desse marco, as formas por meio das quais os indivíduos podiam expressar ideias e intercambiar informação com a sociedade em geral se transformaram radicalmente. A imprensa passa a se posicionar frente aos temas de interesse geral, influenciando diretamente a sociedade ao seu redor.

Muito se fala a respeito do papel da mídia no século XXI e da crescente importância dos meios de comunicação de massa como instrumentos capazes de garantir a efetivação plena da democracia e de aperfeiçoar as instituições do chamado Estado de Direito. Eles teriam a capacidade de dar visibilidade às demandas de interesse público, ao mesmo tempo em que informam a população sobre as ações dos governantes.

O que acabou ocorrendo, no entanto, foi o oposto. Em muitos países, a mídia está concentrada nas mãos de poucas corporações e é utilizada como dispositivo de doutrinação simbólica e manipulação da opinião pública.

Essas questões foram debatidas no 1º Simpósio Mídia, Estado e Democracia, entre os dias 24 e 25 de outubro de 2016, no Salão Nobre do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs) da UFRJ, no Centro do Rio. Organizado pela UFRJ, UFF e UFRRJ, o objetivo do evento foi ampliar a consciência crítica sobre o papel preponderante da mídia no contexto político nacional e internacional.

Um papel politicamente ativo

Em sua exposição, na mesa Mídia no Século XXI, Afonso de Albuquerque, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), disse que, pelos modelos ocidentais de análise, existem duas formas básicas de enxergar a relação entre mídia e política.

“O primeiro se baseia na ideia do paralelismo político, que trata do conceito de que a mídia, grosso modo, reproduz perspectivas que estão representadas pelos partidos e pelas forças políticas da sociedade. O outro seria o do jornalismo independente, que tem como seu principal referencial o modelo norte-americano. Nesse caso, a imprensa reivindica um lugar de fala que transcende as forças políticas particulares, tendo a concepção de objetividade como um de seus principais alicerces”, afirmou.

Foto de Afonso de Albuquerque, professor da Universidade Federal Fluminense.
Afonso de Albuquerque, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF). Foto: Portal Epsjv / Fiocruz

Segundo Albuquerque, o que caracteriza a imprensa brasileira é o fato de que ela reivindica o papel politicamente ativo, porém acima dos partidos: “A grande mídia assume, a partir da década de 1980, uma posição de liderança sobre os partidos políticos, e reivindica, dessa forma o ‘quarto poder’, o poder moderador, responsável por ajustar os conflitos entre os três poderes e, acima deles, resolver esses conflitos”.

Essa configuração, para ele, se alterou um pouco com a vitória em 2003 de uma coalizão de centro-esquerda, capitaneado pelo Partido os Trabalhadores (PT), que teria incomodado a grande mídia pelo risco de não mais exercer o controle sobre o governo federal.

Jornalismo é expor as diversas faces de um assunto

É diante desse contexto que surge e se desenvolve no Brasil um jornalismo alternativo exercido especialmente em sites blogs e redes sociais por veículos que extrapolam o escopo temático da chamada grande mídia.

Esse tipo de jornalismo, na maioria das vezes, cobre fatos e informações ignoradas ou negligenciadas pela mídia corporativa. Dedica-se a causas com pouca visibilidade e se configura como atividade independente, opondo-se à tradicional empresa jornalística nacional.

Também integrante da mesa, Maria Carolina Trevisan, redatora da Revista Brasileiros e do portal Jornalistas Livres (reconhecido e respeitado veículo do jornalismo independente brasileiro), afirmou que uma reportagem de qualidade precisa ter mais que uma fonte.

Ela destacou que não basta ouvir apenas um lado, protocolarmente, como manda o manual de redação, mas expor as diferentes faces e opiniões de um determinado assunto para que, dessa forma, o leitor seja capaz de formar a sua própria opinião ao ler a matéria.

“Isso não significa que precisamos estar em um veículo que não tenha posicionamento. Nós, do Jornalistas Livres, acreditamos que isso não exista. Portanto, deixamos muito claro quais são os nossos posicionamentos. Éramos contrários ao impeachment, por exemplo, e estamos sempre ao lado dos movimentos sociais. O importante é manter o leitor ciente desse posicionamento, caso contrário torna-se manipulação”, afirmou.

Essa postura jornalística transparente já rendeu 617 mil seguidores ao Jornalistas Livres – até 8 de dezembro – em sua página no facebook, um número extraordinário considerando que foi criada há menos de dois anos, em março de 2015. Idealizada dois anos antes, em março de 2013, outra iniciativa bem-sucedida de comunicação independente, a Mídia Ninja, contava com 1 milhão e 208 mil seguidores na mesma data.

“Vi em Brasília comportamentos que não eram imparciais”

Para Maria Carolina, a grande mídia, por ter suas amarras diretamente ligadas ao Estado, não consegue produzir um conteúdo imparcial e informativo sem utilizar-se de técnicas de manipulação.

A repórter, que fez a cobertura tanto do processo de impeachment como de inúmeras manifestações que colaboraram para que ele ocorresse, se mostrou preocupada com o futuro do jornalismo no país.

“A tendência da mídia corporativa é fazer uma cobertura pasteurizada, como se todos ali estivessem de acordo com a ideologia da minoria que está à frente. As pessoas podem se manifestar contra a corrupção, mas isso não as coloca necessariamente em uma posição contrária ou simpatizante de determinado partido, como a grande mídia as representou”, analisou.

Foto de Maria Carolina Trevisan, redatora da Revista Brasileiros e do portal Jornalistas Livres.
Maria Carolina Trevisan, redatora da Revista Brasileiros e do portal Jornalistas Livres. Foto: Lula Marques

O papel dos Jornalistas Livres, segundo ela, foi justamente mostrar as nuances que levaram cada pessoa às manifestações: “E acho que isso nós conseguimos. É necessário conversar com as pessoas, entender a opinião delas, é o mínimo”, disse Maria Carolina.

A jornalista relatou ainda que fez a cobertura do impeachment em Brasília e teve a oportunidade de ver um comportamento que não foi imparcial de colegas da grande mídia, ainda que se queira dizer o contrário.

“O jornalismo de qualidade é um mediador estratégico, que garante que algumas pautas ocultas da sociedade ganhem visibilidade, entrem na discussão e recebam, dessa forma, resolução por meio de políticas públicas“, concluiu a jornalista.

A concentração da mídia é mundial

Em seguida, Leonardo Valente, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), frisou que o acesso à informação e a liberdade de expressão ampliaram o seu alcance, mas a mídia corporativa, no entanto, ainda não perdeu seu aspecto antidemocrático.

“Não se trata apenas do Brasil. As quatro principais agências de noticias do mundo, Reuters, AFP, EFE e AP, representam juntas 92,4% do mercado mundial de notícias internacionais. Isso considerando que as grandes redes de televisão e jornais de alta circulação, como Fox News, CNN e New York Times, são também clientes dessas agências de notícia”, sublinhou.

Com o advento da internet e o ingresso da impressa internacional no Brasil existe atualmente, segundo o professor, uma resistência e uma diversificação de plataformas muito maiores.

“Não há dúvidas de que hoje em dia as pessoas possuem mais voz e acesso a outras formas de conceber informação. Em contraposição, a comunicação continua verticalizada, monopolizada, centrada nas grandes corporações de mídia. Isso que faz com que a democracia dos meios e a democracia das formas de expressão, embora muito legítimas, possam fazer muito pouco relativamente ao que a mídia mainstream é capaz de fazer, com tanto alcance”, salientou.

O professor ainda estendeu sua crítica ao mercado e à economia do país. “Você em um supermercado e vê uma prateleira repleta de produtos. E pensa: quanta diversidade em nossa economia, como temos indústrias, quantos biscoitos e achocolatados diferentes! Quando se olha os rótulos, vê-se que se tratam de três ou quatro empresas, no máximo. A concentração de poderes, capital e influência é um problema muito sério no Brasil. Assim funciona também a política e a comunicação”, comparou Valente.

A monopolização dos recursos midiáticos, segundo ele, dá ao Estado e aos grandes empresários e investidores o poder de controlar não somente o mercado e a economia do país, mas também a ideologia e a forma de pensar das massas. “O que as pessoas comem, vestem, pelo que lutam e no que acreditam, tudo isso pode ser determinado por meio das informações que chegam até às elas”, disse.

Para Valente, ao transmitir apenas informações unilaterais, como acontece na esfera política, por exemplo, a mídia tradicional desestimula a capacidade de reflexão dos indivíduos e cria seres não pensantes, “máquinas” reprodutoras de informação e eleitores facilmente manipulados.