Universidade

Ora, direis: para que ver astros?

Isabela Izidro

Imagem colorida do telescópio do Observatório do Valongo.
Telescópio do Observatório do Valongo. Foto: Site do Observatório

O Observatório do Valongo, que completou 135 anos em 2016, representa um tesouro da importante e ainda não tão valorizada Astronomia nacional.

Localizado no topo do Morro da Conceição, centro da cidade do Rio de Janeiro, é uma unidade acadêmica vinculada ao Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN) da UFRJ.

O local é utilizado atualmente como sede dos cursos de graduação e de pós-graduação em Astronomia e acomoda em seu interior um importante acervo histórico de materiais e pesquisas astronômicas.

Pesquisas desenvolvidas em território nacional

Segundo Helio Jaques Rocha-Pinto, diretor do Observatório, muitas descobertas importantes são feitas dentro do território nacional e não recebem por parte da mídia do país o reconhecimento merecido.

Para ele, existe uma tendência já sedimentada nos meios de comunicação tradicionais de só dar atenção à Ciência quando se vê um “burburinho” nos meios de comunicação internacionais.

“Se por acaso o The New York Times, o Washington Post ou algum jornal europeu diz algo a respeito, de repente se torna relevante. E o que a mídia nacional faz? Ou pega uma notícia já pronta de uma revista ou agência internacional ou vai atrás de alguém lá de fora para se pronunciar”, critica Rocha-Pinto, que é associado da International Astronomical Union e membro da diretoria da Sociedade Astronômica Brasileira.

Imagem de Helio Jaques Rocha-Pinto, diretor do Observatório, que observa o céu pelo teloscópio do Valongo.
Helio Jaques Rocha-Pinto, diretor do Observatório, observa o céu pelo teloscópio do Valongo. Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

No Brasil se faz Ciência

Há inúmeros estudos desenvolvidos em território nacional que não recebem destaque na mídia. Entre eles, cita a descoberta de anéis ao redor do asteroide Chariklo, que orbita o Sol entre Júpiter e Netuno, que pode ajudar a entender a formação do Sistema Solar.

O pesquisador menciona ainda outras descobertas: a produção de Lítio em fases da vida de estrelas gigantes; uma possível relação entre a massa de um buraco negro e o brilho de uma galáxia; e o estudo revelador a respeito da hipótese da misteriosa estrela Eta carinae ser uma estrela dupla.

“Tudo isso foi desenvolvido dentro de nosso próprio país por pesquisadores brasileiros. E mesmo assim a mídia age como se simplesmente não existissem pesquisadores no país, como se o trabalho que desenvolvemos aqui não fosse relevante. Nossa imprensa tem essa mania de fazer parecer que dentro do nosso país não se faz Ciência”, lamenta.

Pesquisas desenvolvidas no Valongo

Dentro do Observatório do Valongo, a situação não é diferente. São desenvolvidas inúmeras pesquisas de ponta extremamente importantes dentro e fora do universo da Astronomia.

Uma, entre as inúmeras pesquisas desenvolvidas no Observatório, foi feita pela pesquisadora e professora adjunta Karín Menéndez Delmestre, trabalho que lhe rendeu o Prêmio L’Oréal UNESCO ABC para Mulheres na Ciência na área de Ciências Físicas. Ela estuda o campo da evolução de galáxias e os processos de suas formações.

Outra importante pesquisa de estrutura galáctica foi realizada por Rocha-Pinto, que descobriu uma galáxia anã satélite da própria Via Láctea. Um importante processo, segundo ele, para entender a história de formação da nossa própria galáxia, que “canibaliza” e distorce as vizinhas menores, devido à proximidade e à diferença de força gravitacional produzida por uma galáxia maior ao longo de outra menor.

Imagem do telescópio Coudé e do refrator Carl Zeiss, no Observatório do Valongo.
Telescópio Coudé e refrator Carl Zeiss. Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

A também professora adjunta do Observatório do Valongo Denise Rocha Gonçalves é responsável pelo estudo de nebulosas planetárias, objetos que representam o fim da vida de uma estrela e que expelem o gás que estava antes em seu interior.

“A composição química dessas nebulosas representa a época em que estas foram formadas e auxilia no desenvolvimento de estudos a respeito da evolução química de galáxias”, explica Thiago Signorini, vice-coordenador de Pós-Graduação do Observatório do Valongo.

Signorini, por sua vez, descobriu que galáxias muito pobres em poeira são essencialmente invisíveis no rádio.

“Isso acontece porque a radiação ultravioleta que vem de estrelas jovens destrói as moléculas que usamos para detectar o gás, mais especificamente o monóxido de carbono. Para isso, usei o radiotelescópio Alma, o mais avançado do mundo, no Chile, um instrumento de 1 bilhão de dólares”, explica o pesquisador e professor adjunto da instituição. 

Imagem de Thiago Signorini, vice-coordenador de Pós-Graduação do Observatório do Valongo.
Thiago Signorini, vice-coordenador de Pós-Graduação do Observatório do Valongo. Foto: arquivo pessoal

Na área em que atua – formação e evolução de galáxias –, o objetivo é estudar e aprender sobre como funcionam os astros.

“Em geral, nossa especialidade é observacional, ou seja, na maioria das vezes desenvolvemos nossas pesquisas usando telescópios e adquirindo dados, ao contrário da Astrofísica Teórica, que se faz com mais matemática e modelos computacionais”, compara.

Segundo Signorini, muitas das vezes as observações usadas como base para pesquisas não são feitas dentro do próprio Observatório.

“É impossível com o céu do Rio de Janeiro. O nosso grupo de Extragaláctica, por exemplo, usa telescópios no mundo inteiro: Chile, Havaí, Índia, Espanha. E vários tipos de telescópios também, como radiotelescópios e satélites espaciais. Enviamos para as equipes locais as instruções para obter os dados e elas fazem as observações, enviando tudo pela internet. No Valongo, nós processamos e analisamos os dados”, esclarece.

Preocupado com a falta de repercussão das pesquisas astronômicas desenvolvidas dentro do Observatório do Valongo e no território nacional, o pesquisador Thiago Signorini, que coordena também a Comissão de Imprensa da Sociedade Astronômica Brasileira, idealizou um projeto de divulgação desses estudos.

Ele começou a reparar que nos jornais o que aparecia de notícias sobre Astronomia era sempre sobre pesquisas feitas nos Estados Unidos ou Europa.

“O público em geral nem sabe que a pesquisa em Astrofísica que fazemos aqui é de ponta. As pessoas ficam com a ideia de que as descobertas são feitas pela Nasa e o nosso papel se limita apenas ao ensino”, observa Signorini, que é graduado em Física pela UFRJ e doutor em Astrofísica pelo California Institute of Technology.

“Agora, já fizemos exposições em museus, recebemos visitas de escolas, público leigo para palestras e observações do céu. Mesmo assim, o alcance ainda é um muito limitado”, diz.

Batizado de Astrojornalistas, o projeto irá divulgar periodicamente alguns comunicados a respeito das pesquisas desenvolvidas no Observatório para que possam ser veiculadas na imprensa nacional.

“Conversei com alguns jornalistas especializados no assunto para tentar entender melhor a situação. E no final percebi que são os press releases que realmente fazem a diferença. Os institutos de pesquisa internacionais têm uma assessoria de imprensa que trabalha 100% do tempo fazendo isso. Aqui no Brasil isso simplesmente não existe. E a minha ideia com o projeto é justamente combater um pouco esse monopólio”, afirma.

De acordo com o professor, essa situação impede o desenvolvimento de novos talentos, além de dificultar muito a captação de recursos.

“Por exemplo, há algum tempo estamos tentando investir na participação em um consórcio europeu de telescópios. É uma grana alta, centenas de milhões de reais ao longo de 10 anos. Mas como vamos convencer o Congresso da importância desse investimento se ninguém sabe o que fazemos aqui?”

O objetivo do pesquisador, que já conseguiu algumas publicações em jornais como a Folha de São Paulo, é desenvolver uma equipe de graduandos da UFRJ, tanto do curso de Comunicação como de Astronomia, para que possam, por meio da troca de conhecimentos, auxiliar uns aos outros na implementação do projeto.

O professor mencionou ainda a ideia de usar as mídias sociais como veículos de divulgação. “Facebook, Twitter pra divulgar o nome do Valongo o máximo possível. Já temos isso, mas, se conseguirmos mais visibilidade, espero atrair mais seguidores.”

Segundo Signorini, o projeto foi recentemente aprovado pela União Astronômica Internacional, que forneceu recursos financeiros ao pesquisador para que ele possa levar a ideia adiante.

Fundado em 1881 pelo Dr. Manuel Pereira Reis, o Observatório do Valongo foi, antes de sua configuração atual, uma unidade da Escola Politécnica (Poli) e tinha como principal função prover aulas práticas de Astronomia e Geodésia aos alunos da Poli e aos aspirantes da Escola da Marinha. Apenas em 2002, o Observatório passou a ser reconhecido como uma unidade da UFRJ.

Imagem do Observatório que foi fundado em 1881 e reconhecido como unidade da UFRJ em 2002.
Fundado em 1881, o Observatório foi reconhecido como unidade da UFRJ em 2002. Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom / UFRJ)

Aberto a visitações, o Observatório recebe o público para sessões de observação dos astros no telescópio e um tour pelo local, acompanhado por um astrônomo.

Além disso, o principal fórum de discussão científica do Observatório é o Ciclo de Seminários, oferecido semanalmente por astrônomos profissionais convidados de instituições locais, nacionais e internacionais.