Extramuro

Universidade da Cidadania: um diálogo com saberes não acadêmicos

Lusiane Sousa

Ilustração colorida de uma parede repleta de livros, com uma porta pela qual entra uma pessoa. A imagem representa a abertura da universidade à sociedade.
Ilustração: Zop

No Brasil, a universidade pública ainda é considerada pouco democrática. Apesar dos avanços dos últimos anos, como as ações afirmativas, que ampliaram o ingresso de jovens no ensino superior, ainda existe uma grande parcela da sociedade brasileira excluída do acesso aos conhecimentos que a academia produz e tem por tarefa difundir.

Por outro lado, há uma espécie de isolamento da própria universidade com relação a saberes não acadêmicos de enorme relevância, que muitas vezes não circulam como deveriam dentro dela. Nesse contexto, a Universidade da Cidadania, vinculada ao Fórum de Ciência e Cultura (FCC) da UFRJ, é uma iniciativa que busca atender a essa demanda de maior interação entre vários tipos de conhecimento. É considerada, pelos seus idealizadores, como uma universidade livre e literalmente aberta a todos que se interessarem.

“A Universidade da Cidadania nasce como uma espécie de portas e janelas abertas na relação da universidade com o mundo de fora e em particular com as organizações sociais, com os movimentos populares, no sentido de estabelecer com eles um diálogo e uma troca de saberes. Além disso, é também o cumprimento de uma tarefa fundamental da universidade: a de difundir os saberes que guarda”, explica Carlos Vainer, idealizador do projeto e também coordenador do Fórum.

Para Vainer, cabe à universidade contribuir para reduzir o desequilíbrio gerado pela distribuição desigual dos saberes. Como a universidade, sobretudo a pública, ainda se encontra numa posição elitista e pouco democrática, a Universidade da Cidadania aparece como uma possibilidade de superar esse problema.

Imagem de Carlos Vainer, idealizador da Universidade da Cidadania e coordenador do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.
Carlos Vainer, coordenador do Fórum de Ciência e Cultura (FCC) da UFRJ. Foto: Eneraldo Carneiro (FCC / UFRJ)

“É uma espécie de universidade livre, que ninguém precisa fazer vestibular para entrar, onde cursos de diferentes naturezas são oferecidos e de maneira a tentar fazer com que a universidade seja um pouco mais popular”, completa.

“A universidade deve repensar forma de produzir conhecimento”

“A Universidade da Cidadania é a democratização da universidade, é dar uma cara mais popular para ela, pintá-la de outras cores, como diria o Che Guevara. É fazer a universidade se diversificar mais”, explica Adriana Facina, antropóloga e coordenadora do projeto.

Segundo Adriana, o principal propósito da iniciativa é criar pontes de diálogo com conhecimentos não acadêmicos e aproximá-los da universidade. Além disso, o projeto também tem como objetivo promover cursos de formação e capacitação para setores tradicionalmente excluídos da rede formal de educação.

A universidade produz conhecimentos científicos que, segundo ela, precisam servir à sociedade e aos movimentos sociais de alguma forma. “A universidade precisa repensar suas formas de produção de conhecimento. Faz muita diferença, por exemplo, alguém que está reivindicando o direito à moradia saber sobre a história da cidade e sobre como essa questão foi tratada em outros momentos históricos”, frisa.

Imagem de Adriana Facina, antropóloga e coordenadora da Universidade da Cidadania, projeto vinculado ao Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.
Adriana Facina, coordenadora da Universidade da Cidadania. Foto: Lusiana Sousa (Coordcom / UFRJ)

Adriana diz ainda que a concepção do projeto vai totalmente contra a ideia de que o ensino deva ser tratado como mercadoria. “A produção de conhecimento deve servir à emancipação humana, à felicidade, ao fim da desigualdade social, de gênero e de raça.”

E acrescenta que vivemos um período de forte ataque às universidades públicas, citando a Uerj como exemplo.

“As federais são a bola da vez. Então, acho que é também uma questão de sobrevivência. Quanto mais diálogo, democratização e participação da sociedade na vida universitária, mais público será seu caráter, mais sentido ela vai fazer”, defende Adriana.

A visão dos movimentos socais

Os movimentos populares e sociais são um dos focos da Universidade da Cidadania. A maneira como o projeto dialoga com eles se dá por meio da troca de saberes. Com o apoio do projeto, o alcance dos movimentos se tornará maior e ganhará força e engajamento.

Ouvido pelo Conexão UFRJ, Renato Cosentino, que participou do Comitê Popular da Copa 2014 e das Olimpíadas 2016, considera importante promover uma troca de saberes, que no fim também se complementam.

“De um lado, a universidade, com o rigor científico e a teoria, podendo ainda assessorar os movimentos através de projetos de extensão. De outro, os movimentos, com a sua prática cotidiana de luta por direitos”, afirma Cosentino, acrescentando que o Comitê foi uma articulação de movimentos sociais que se opôs às violações de direitos humanos ocorridas durante os grandes eventos esportivos.

Ele completa dizendo que a universidade pública precisa se aproximar dos movimentos populares para cumprir a sua função social e que a Universidade da Cidadania é um importante instrumento nesse sentido.

Cursos e parcerias

O projeto ainda não possui estrutura física. No entanto, há planos para este ano em relação a cursos e parcerias, e as expectativas são promissoras.

Atualmente, uma parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes está sendo articulada para a criação de um curso de extensão sobre Cultura e Políticas Públicas, destinado a produtores culturais populares.

Além disso, segundo Adriana, há a possibilidade da realização de um evento sobre os 100 anos da Revolução Russa, que está sendo articulado com outras universidades.

Outro projeto em debate é a organização de um curso “pré-pós-comunitário”, nos moldes dos pré-vestibulares comunitários, voltado a pós-graduandos que desejam ingressar no mestrado e precisam de orientação.

“A gente quer fazer um preparatório que seja voltado ao grupo dos negros, da classe trabalhadora, dos moradores de periferia, a fim de que possam se preparar para ingressar nesse funil que é a pós-graduação”, completa.

Os cursos da Universidade da Cidadania serão divulgados pelo site que será reativado em breve. As mídias sociais também serão boas aliadas à divulgação do projeto e suas parcerias.