Internacional

Para onde vai a economia global na era Trump

Jaqueline Ruiz

Ilustração colorida do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sentado em um muro sobre o globo terrestre.
Ilustração: Luiz Guilherme Quélhas

Do programa de TV O Aprendiz à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump mantém a atenção das câmeras sobre si. Após oito anos no poder, o democrata Barack Obama deixou a Casa Branca para que seu sucessor, do Partido Republicano, assumisse o cargo, para o qual foi eleito em 8 de novembro de 2016, sob olhares de esperança daqueles que acreditam no slogan de sua campanha, “Make America Great Again” (Faça a América Grande Outra Vez), mas também de revolta e aflição dos seus opositores.

Se a sua candidatura foi vista com comicidade pelo mundo, devido às suas declarações polêmicas e ao perfil inusitado, agora que é uma realidade, cada passo seu é observado com atenção considerável. Afinal, dada a dimensão da posição de influência dos Estados Unidos no mundo, as decisões do novo presidente até podem “fazer a América grande de novo” - por América leia-se EUA -, mas impactará a economia de países aliados.

Imagem da posse de Donald Trump.
Posse de Donald Trump. Foto: Ching Oettel (The National Guard)

Os fatores da vitória de Trump

Apesar da pouca aprovação e popularidade, Trump convenceu seu eleitorado com suas propostas e discurso acentuado contra a “ameaça externa” ao enfatizar o combate ao terrorismo e culpar os imigrantes ilegais por “roubarem” empregos dos norte-americanos.

Para Luiz Carlos Delorme Prado, professor do Instituto de Economia (IE) da UFRJ, o voto em Trump corresponde a uma crescente insatisfação do eleitor com o lento desenvolvimento da economia americana nos últimos anos, que pouco beneficiou os cidadãos em termos de bem-estar social e geração de empregos.

O que esperar da nova gestão

Segundo Delorme, o governo de Trump irá se assemelhar ao de Ronald Reagan (1981−1989). Ou seja, aumentará os gastos, principalmente na área militar, e reduzirá impostos com a intenção de impulsionar o crescimento da economia norte-americana. “Ele tem alguns discursos na área de política econômica que podem ter um impacto positivo na economia americana. O crescimento do protecionismo pode ter um efeito ruim para o resto do mundo, mas será positivo para a indústria americana, pelo menos no curto prazo.”

Imagem de Luiz Carlos Delorme Prado, professor do Instituto de Economia da UFRJ.
Luiz Carlos Delorme Prado, professor do Instituto de Economia (IE) da UFRJ. Foto: William Santos

Delorme explica que o resultado da política de Trump será uma aceleração do crescimento e a redução do desemprego. Porém, isso se dará à custa de tensões com outros países, como o México, que é o maior produtor e exportador de veículos da América Latina, e os Estados Unidos são o seu maior cliente.

Em 2016, 77% dos 3,47 milhões de veículos produzidos no México foram vendidos nos EUA. Mas bastou Trump ameaçar impor uma barreira tarifária sobre a importação para que parte desses investimentos fosse redirecionada para o território americano. Em suma, em virtude  do grande poder econômico americano, dado o seu mercado interno, aumentar os impostos sobre a importação resulta no deslocamento da produção para solo americano, e isso se reflete na geração de emprego.

Seguindo o mesmo raciocínio, Leonardo Valente, coordenador do curso de Relações Internacionais e professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs) da UFRJ, afirma que Trump dá todos os indicativos de que seu governo será voltado para uma pauta protecionista e desenvolvimentista. Mas alerta que essa pauta tem um potencial considerável de provocar um desastre no plano econômico internacional.

De acordo com a pesquisa de opinião pública da Associated Press e do Norc Center for Public Affairs Research, embora quase 60% dos norte-americanos reprovem o desempenho geral de Trump, 50% aprovam os seus esforços para o crescimento da economia, enquanto 48% não aprovam.

Imagem de Leonardo Valente, coordenador do curso de Relações Internacionais da UFRJ.
Leonardo Valente, coordenador do curso de Relações Internacionais da UFRJ. Foto: Arquivo pessoal

Relacionamento com o Brasil

No caso do Brasil, não há muito que esperar. Valente diz que o cenário seria favorável caso o país estivesse em uma fase política, econômica e social mais estável. “Eu não posso dizer nem se o Brasil vai ser bom para o Brasil. O governo Trump é uma oportunidade perdida para o nosso país.”

Na opinião de Delorme, a situação no mundo não facilita a expansão do comércio internacional e, além disso, a falta de uma política externa consistente, com um governo brasileiro frágil e pouco representativo, torna ainda mais difícil enfrentar a atual conjuntura. “Trump não tem nada para oferecer ao Brasil, nem este tem algo para oferecer a ele que possa alterar de alguma maneira a política externa norte-americana. O que o Brasil pode fazer é continuar a abrir as portas para o investimento internacional, mas unilateralmente, pois não vai obter nenhum benefício político ou econômico em função desse tipo de estratégia”, diz.

No entanto, o Brasil está deixando abertos os canais diretos de diálogo. Segundo a Agência EBC, no dia 18 de março, Trump e o atual presidente brasileiro, Michel Temer, conversaram ao telefone a respeito das reformas em curso em ambos os países e acertaram manter contato regular. Mas apesar desse  contato telefônico com  Temer, ainda não houve nenhuma manifestação do presidente dos EUA em relação a propostas para o Brasil e a América do Sul.

Taxação de Trump afetará economia nacional

Francisco Carlos Teixeira, cientista político e professor de História Moderna e Contemporânea do Ifcs/UFRJ, sugere que o investimento no exterior não é uma prioridade tão alta quanto a retomada da dinâmica econômica dentro dos Estados Unidos. “Ele está chamando os capitais americanos do exterior para investir no seu plano de reconstrução da América. Então, investir na América Latina é uma perda muito grande na criação de novos empregos dentro dos EUA”, sublinha.

Imagem de Francisco Carlos Teixeira, cientista político e professor de História Moderna e Contemporânea do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.
Francisco Carlos Teixeira, cientista político e professor de História Moderna e Contemporânea do Ifcs/UFRJ. Foto: www.dvf.com.br

Por outro lado, mesmo que Trump não coloque o Brasil em pauta, o país ainda pode ser afetado por sua política. Caso ele mantenha a promessa de taxar em 45% os produtos importados da China, isso afetará a atividade econômica chinesa e reduzirá suas importações de commodities, prejudicando as exportações brasileiras. O protecionismo do republicano também atingirá nossa exportação de soja e carne para os Estados Unidos.

A insatisfação da população norte-americana com a crise iniciada em 2008 foi uma das razões para a ascensão de Donald Trump. Naquele período houve uma sucessão de falências de instituições financeiras norte-americanas e europeias, que ficou conhecida como “estouro da bolha imobiliária” e abalou toda a estrutura da economia mundial.

O reflexo dessa crise no cotidiano do cidadão norte-americano, como o desemprego e a redução da qualidade de vida, pode ser considerado o estopim do sentimento de fracasso diante do processo de globalização, do qual os Estados Unidos são líderes.

Diante desse contexto, com um discurso antiglobalização, o candidato outsider Donald Trump foi vencendo as outras candidaturas nas eleições primárias e ganhando destaque no Partido Republicano. Trump também se beneficiou com a alta rejeição à candidata Hillary Clinton derivada do desgaste do governo democrata de Obama.

“Para os que não gostam de Trump, esse acúmulo de fatores foi a tempestade perfeita para que ele chegasse ao poder. Mas para os que o apoiam foi a porta de entrada”, opina Leonardo Valente.