Sociedade

O abismo da crise ou um novo projeto de país

Coryntho Baldez

Imagem em preto e branco da ponta de dois pés calçados em cima de um prédio e com a visão da rua lá embaixo, simbolizando um abismo ou suicídio.
Foto: Pixabay

O Brasil vive hoje um dilema: ou persiste no caminho predatório da financeirização da economia ou se reconstrói a partir de um amplo projeto de desenvolvimento. Um projeto que inclua a expansão do parque produtivo – com autonomia tecnológica e atenção especial ao novo ciclo de inovações –, justiça social e sustentabilidade ambiental.

Essa foi a principal conclusão do seminário Brasil, Conjuntura e Perspectivas, promovido pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), no dia 20/2, na Casa da Ciência da UFRJ. Na ocasião, pesquisadores e economistas falaram sobre o cenário econômico e social do país.

Que projeto será escolhido no voto?

Luciano Coutinho, professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ex-presidente do BNDES, disse que gostaria de discutir a recuperação do desenvolvimento e não da economia. “São questões completamente diferentes. Que tipo de projeto queremos para o país do ponto de vista da igualdade social, do meio ambiente, da previdência social? Recuperar o desenvolvimento pressupõe a definição de políticas de longo prazo.”

Mas, segundo ele, há uma questão que antecede a esse debate: a crise do sistema politico brasileiro, que gera uma grande incerteza sobre o futuro.

“Temos uma crise do sistema político e uma pergunta ainda sem resposta: qual é o projeto que vai em 2018 ser escolhido pela sociedade brasileira no voto? Os investimentos em saúde, em educação, tudo isso é relevante para o processo. Temos que lembrar que as sociedades não são indiferentes às ações econômicas, que se refletem nos processos sociais e estão longe de serem neutras”, destacou.

Imagem de Luciano Coutinho, professor titular da Universidade Estadual de Campinas e ex-presidente do BNDES.
Luciano Coutinho, professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ex-presidente do BNDES. Foto: Diogo Vasconcellos (CoordCOM / UFRJ)

Para Coutinho, é preciso que o Brasil olhe para o que está sendo feito na fronteira da ciência e da tecnologia e se prepare para o futuro, em áreas como biotecnologia, nanotecnologia e internet das coisas, por exemplo.

O docente criticou ainda a brutalidade do volume de encargos financeiros pagos ao sistema financeiro. Para ele, há um espaço grande para a redução dos juros no Brasil – os maiores do mundo – para algo em torno de 2,5%. “Uma reforma importante e esquecida é fazer o atual sistema financeiro transitar do rentismo de curto prazo para um sistema que impulsione o desenvolvimento brasileiro.”

Crise do capitalismo exige soluções de longo alcance

Em sua exposição, Clélio Campolina, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), disse que o capitalismo, no Brasil e no mundo, vive uma crise apontada por pensadores de diferentes linhas teóricas.

“O sistema vive hoje às voltas com a desigualdade de renda, a crise ambiental, o desemprego, a financeirização e a insegurança cibernética, por exemplo. Tudo isso nos leva a perguntar se estamos diante de uma verdadeira metamorfose, com mudanças estruturais inevitáveis de médio e longo prazo”, afirmou.

Para enfrentar o cenário geopolítico global de incertezas, Campolina considera importante saber usar as vantagens comparativas do Brasil, como a riqueza e o potencial econômico dos recursos naturais do território marítimo e da Amazônia.

O pré-sal e as suas reservas petrolíferas, ameaçadas hoje por uma política de leilões dirigida a companhias multinacionais, assim como o aproveitamento da biodiversidade da floresta amazônica – sem destruí-la – são pilares importantes para um projeto de desenvolvimento de longo prazo, capaz de combinar crescimento econômico, igualdade social e sustentabilidade ambiental, de acordo com o pesquisador.

Imagem de Clélio Campolina, professor da Universidade Federal de Minas Gerais.
Clélio Campolina, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foto: Diogo Vasconcellos (CoordCOM / UFRJ)

Mas o Brasil, segundo Campolina, ainda tem outros grandes desafios a superar. Um deles se relaciona diretamente com a universidade: a baixa escolaridade nos níveis fundamental e médio.

“Isso é decisivo do ponto de vista da cidadania e da consciência política, da capacitação profissional e da preparação para o ensino superior. O Brasil não conseguiu até hoje resolver o problema da educação básica. Está conseguindo um avanço na educação superior, mas com um déficit na educação básica!”, frisou.

Recuperar a indústria ou “mexicanizar” a produção

Outra questão a enfrentar, para o professor, é a necessidade de integrar a comunidade científica à atividade produtiva e ao setor de serviços, sem fazer da universidade mero instrumento do mercado. “As instituições acadêmicas precisam de autonomia para a pesquisa e para qualificar recursos humanos de alto nível.”

Campolina disse ainda que o fortalecimento da área de projetos de engenharia e de produção de bens e serviços é vital para a autonomia tecnológica.

“A indústria continua sendo o carro-chefe da modernização. Em 1980, ela representava 30% do PIB, hoje está em torno de 11%. Há desindustrialização e desnacionalização, e os componentes industriais importados estão crescendo exageradamente. Há setores que podem virar maquiladoras padrão mexicano. Precisamos dar a devida atenção ao desafio industrial”, completou.

“Rentismo não cabe dentro do desenvolvimento”

Em seguida, Fernando Sarti, diretor do Instituto de Economia da Unicamp, foi duro na crítica à financeirização da economia brasileira. Ele disse que com rentismo não há desenvolvimento. E que, para alcançá-lo, o Brasil precisará expandir a base produtiva e tecnológica.

“Em relação ao rentismo, sempre ouvimos por parte dos liberais que os direitos sociais previstos na Constituição não cabem no orçamento brasileiro. Vou inverter essa proposição e dizer que a sustentação do rentismo é que não cabe dentro do desenvolvimento brasileiro”, atacou.

Imagem de Fernando Sarti, diretor do Instituto de Economia da Unicamp, mostrando gráfico com as altas despesas do governo com juros.
Fernando Sarti ( à esq.) mostra gráfico com as altas despesas do governo com juros. Foto: Diogo Vasconcellos (CoordCOM / UFRJ)

Ao falar sobre o propalado déficit fiscal, Sarti frisou que o endividamento público brasileiro tem uma clara dinâmica financeira. Portanto, atribuí-lo ao fato de que o país gasta mais do que arrecada é falso. Ele indagou: temos, de fato, uma dívida pública fora de controle?

“Se a gente olhar para o mundo, o percentual da dívida brasileira em relação ao PIB é até baixo para o padrão internacional. É lógico que ela é financiada a taxas muito elevadas, mas essa é outra questão. Portanto, dizer que isso estava fora de controle é um grande exagero. Desde o Plano Real até 2014, sempre arrecadamos mais do que gastamos”, argumentou.

Então porque surgiu essa dívida? Entre 1994 e 2014 ela saltou de R$ 150 bilhões para R$ 3 trilhões e 100 bilhões. Ou seja, o país multiplicou a dívida pública por 20 mesmo sendo superavitário. “O que provocou essa dívida foi a dinâmica financeira e não operacional. Os juros elevados levaram a um crescimento brutal da dívida.”

Segundo Sarti, o Brasil pagou em 2015 8,4% do PIB de juros da dívida, uma soma de R$ 500 bilhões. E gastou apenas 0,2% em Desenvolvimento Agrário, 0,5% em Saneamento e Habitação e 2,7% em Educação e Cultura, por exemplo.

“O país gastou em 2015 40% da receita tributária federal com o pagamento de juros. Ué, mas estamos fazendo o ajuste fiscal para gastar em juros? O déficit da Previdência alegado pelo governo é de 50 bilhões, 10% do valor pagos com juros em 2015”, disse.

O representante do sistema financeiro na mesa, o economista Éverton Gomes, do Banco Santander, concordou que há espaço para a redução dos juros, “já que a nossa taxa real é a maior do mundo”.

Para ele, o cenário nos últimos anos foi marcado pela combinação de déficit fiscal com inflação alta e atividade econômica fraca. “Os preços administrados estavam represados e o seu reajuste impactou a inflação. A estratégia foi controlar o déficit e a inflação para que, no médio prazo, os investidores recuperem a confiança e a taxa de juros possa voltar a cair e estimular a economia”.

Investir em P&D é vital para o Brasil

Fernando Sarti destacou também que o mundo passa por um processo de “chinalização” da manufatura global – a indústria chinesa em 1996 representava 7% do PIB e hoje chega a 24% – e que o acirramento da competição internacional está levando a uma redução do preço dos produtos industriais.

Imagem de uma fábrica da Volkswagem mostrando a queda da produção do setor automotivo por causa da crise econômica.
Linha de montagem do setor automotivo, um dos mais afetados pela crise industrial. Foto: Volkswagem

“Nossa base produtiva está assentada ainda em setores da 2ª revolução industrial. Ainda não internalizamos completamente aqueles ligados à 3ª revolução, como as TICs”, sustentou.

O Brasil, para Sarti, deve se aproximar com urgência do novo ciclo de “inovações disruptivas”, que colocam grandes desafios para a economia.

O país tem gastos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) bem inferiores à média dos países desenvolvidos e deve se preparar para o impacto que elas terão sobre a economia global, que pode chegar a R$ 40 trilhões nos próximos 10 anos, de acordo com a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido).

Por fim, ele apontou como essencial o papel da universidade pública no desenvolvimento de uma base industrial brasileira autônoma do ponto de vista tecnológico e economicamente competitiva.