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Nada ficou como antes depois da Revolução Russa, que faz 100 anos

Coryntho Baldez

Imagem colorida da pintura das Jornadas de Julho está na exposição Revolução em Imagens, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas..
Pintura das Jornadas de Julho está na exposição Revolução em Imagens, no CFCH.

Quem testemunhou o mar de bandeiras e baionetas que saudaram o discurso de Lenin na Estação Finlândia, em Petrogrado, na noite de 17 de abril de 1917, certamente pressentiu que aquele país agrário e atrasado estava às vésperas de uma grande transformação.

Foram seis meses de preparativos até a insurreição armada contra o governo provisório, em 25 de outubro, quando operários, camponeses, soldados e marinheiros tomaram telégrafos, emissoras de rádio, praças, estações ferroviárias e, quase no fim da noite, ocuparam o Palácio de Inverno, onde se refugiara a família do Czar. Foi o último e mais simbólico ato da Revolução Russa, que instaurou a primeira experiência de Estado socialista do mundo.

Hoje, em comemoração aos 100 anos da Revolução Russa, a UFRJ vem promovendo diversas atividades para debater o evento político que influenciaria decisivamente o século XX e a história posterior da humanidade. O Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) realiza, desde o dia 3/5, a atividade acadêmica Revolução em Imagens, com exposição de fotografias e cartazes e a exibição de filmes sobre a Revolução Russa de 1917.

Imagem colorida de estudantes do Colégio Estadual Amaro Cavalcanti visitando a exposição.
Estudantes do Colégio Estadual Amaro Cavalcanti visitam a exposição. Foto: Cícero Rabello

O material estará em exibição no Espaço Memória, Arte e Sociedade Jessie Jane Vieira de Souza, no 2º andar do prédio da Decania do CFCH, na Praia Vermelha, até o dia 28/7. Também estão sendo realizados seminários com a presença de professores e especialistas no tema. Mais informações aqui.

Como parte da celebração, a UFRJ também promoveu o debate Impactos da Revolução Russa e os Caminhos do Socialismo, no dia 5/5, no Salão Pedro Calmon de Sá, no campus da Praia Vermelha. Coordenado pela Pró-reitora de Extensão (PR-5), Maria Malta, o evento contou com a presença dos professores José Paulo Netto, da UFRJ; João Antônio de Paula, da UFMG; e Plínio de Arruda Sampaio Junior, da Unicamp. Veja o debate completo no canal Web TV UFRJ.

Um grande salto e amplo legado social

O professor Mauro Iasi, do Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas (Nepem) da Escola de Serviço Social (ESS) da UFRJ, avalia que a Revolução Russa inaugura o século XX sob vários aspectos.

“Não só porque é uma revolução de magnitude profunda, que emerge no contexto da I Guerra Mundial. Foi um salto de uma sociedade que sequer havia completado o processo de industrialização para uma revolução social de grande profundidade”, destaca Iasi, um dos organizadores do evento Revolução em Imagens.

Imagem colorida do professor Mauro Iasi, do Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas da Escola de Serviço Social da UFRJ.
Professor Mauro Iasi, do Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas (Nepem) da Escola de Serviço Social (ESS) da UFRJ. Foto: Diogo Vasconcellos (CoordCOM / UFRJ)

A Constituição Soviética de 1918 antecipa temas sobre os quais o século XX se debruçaria com uma radicalidade surpreendente.  Um exemplo, segundo ele, são os diretos das mulheres: “A suprema lei do país garantia não apenas o direito ao casamento pela livre vontade dos envolvidos, mas também a sua anulação pela vontade de um deles, algo impensável na legislação de outros países na época”.

De acordo com o pesquisador, além da igualdade entre homem e mulher, surgem pela primeira vez garantias sociais, como assistência social e previdência, que só encontram paralelo, por exemplo, na Constituição do México do mesmo ano. “Muitos países ocidentais ditos modernos só garantiriam esses direitos no final do século XX.”

O alcance da Revolução Russa, diz o pesquisador, marca profundamente o século XX também porque a própria existência da União Soviética acaba criando uma correlação de forças diretamente responsável por conquistas no mundo capitalista, como é o caso da social-democracia europeia.

Imagem em preto e branco da Assembleia do Soviet de Petrogrado em 1917.
Assembleia do Soviet de Petrogrado em 1917. Foto: Domínio Público

Ao falar sobre o futuro do socialismo, Iasi observa que vivemos hoje um paradoxo. Ao mesmo tempo que a dimensão destrutiva do capitalismo se acentuou, o projeto político que poderia enfrentá-lo está em crise. “Só que o socialismo não é apenas o projeto político de uma organização ou de um segmento da sociedade, ele é uma alternativa que se alimenta e brota da crise e do caráter destrutivo do capitalismo”, afirma.

Ao final da matéria, leia a entrevista completa de Mauro Iasi sobre os desafios do socialismo no século XXI. Ele fala ainda sobre como a realidade de “conflito de classes” vivida hoje no Brasil confirma muitas das teses do marxismo.

Revoluções: lutas contra esquemas de dominação

A decana do CFCH, Lilia Pougy, também ressalta o protagonismo das mulheres na Revolução Russa. E lembra que o mesmo ocorreu na Revolução Burguesa, na França, que teve, porém, uma agenda restrita à conquista de direitos políticos, como o voto feminino.

Todas essas lutas sociais, para a docente, colocam em evidência opressões e determinadas formas de dominação: “Do meu ponto de vista, e a partir do meu referencial teórico, o patriarcado, o racismo e o capitalismo são esquemas de dominação e exploração potentes que incidem sobre os sujeitos sociais, homens e mulheres, trabalhadores ou não, de forma desigual”.

Imagem colorida de Lilia Pougy, decana do Centro de Filosofia e Ciências Humanas.
Lilia Pougy, decana do CFCH. Foto: Diogo Vasconcellos (CoordCOM / UFRJ)

Pesquisadora dos direitos humanos e também da questão de gênero, Lilia frisa que as bandeiras desfraldadas pelo movimento feminista não são específicas das mulheres.

“As lutas sociais na Revolução Russa acabaram conquistando direitos para uma agenda de emancipação da classe trabalhadora, sobretudo das mulheres, porque havia um efeito desigual para mulheres trabalhadoras e homens trabalhadores”, analisa.

A atividade acadêmica como forma de resistência

Ao comentar o evento promovido pelo CFCH, a decana realça a importância de celebrar os processos revolucionários, aqueles com protagonismo das classes trabalhadoras, como a Revolução Russa, conduzida por homens e mulheres que se insurgiram contra a ordem social vigente há 100 anos na Rússia.

“É importante nos apropriarmos desse momento histórico não para transportá-lo até os dias de hoje, mas para estudarmos e conhecermos formas de resistência e organização. E, mais do que isso, realizar hoje qualquer atividade acadêmica desse porte numa universidade pública é também um ato de resistência”, completa.

Veja aqui o vídeo em que a decana do CFCH explica a iniciativa e convida para o evento.

Gabriel Richard, 19 anos, estudante da História da UFRJ e monitor da exposição Revolução em Imagens, afirma que a iniciativa é extraordinária e conta com um trabalho integrado de docentes e estudantes de diversos períodos e cursos.

Imagem colorida de Gabriel Richard, estudante e monitor da exposição.
Gabriel Richard, estudante e monitor da exposição. Foto: Diogo Vasconcellos (CoordCOM / UFRJ)

“A minha função é explicar desdobramentos da Revolução Russa, passando informações sobre as fotografias em exposição. Elas não têm necessariamente uma ordem cronológica, mas expõem momentos importantes da eclosão da revolução e mesmo os desdobramentos dela”, sublinha.

O acervo da exposição conta com mais de 30 imagens impressas e cerca de outras 50 em formato audiovisual sobre eventos e personagens históricos da Revolução Russa.

 

Conexão UFRJ: O fim da antiga União Soviética foi anunciado como uma espécie de funeral do socialismo por muitos pensadores liberais. Como o senhor avalia tal conclusão?

Mauro Iasi: Interessante que a experiência de transição que se iniciou lá, ao contrário de ser uma negação das teses principais do marxismo, seja até certo ponto uma dramática confirmação. Marx e Engels imaginavam uma transição para além de uma sociedade socialista fundada no desenvolvimento profundo do capitalismo mundial. Eles nunca imaginaram uma ruptura e processos de transformação simultâneos em todo o mundo. Mas compreendiam o socialismo como o resultado de um capitalismo mundialmente desenvolvido e que geraria novas condições sociais, novos padrões de sociabilidade e de superação da sociedade de classe. A Revolução Russa ocorre a partir de uma interpretação de Lenin de que, ainda que não houvesse as condições necessárias para uma transição socialista, havia naquele momento condições políticas para uma ruptura que contribuiria com o desfecho da revolução mundial.

Conexão UFRJ: Como assim?

Mauro Iasi: Os bolcheviques consideravam a Revolução quase como uma retaguarda que tornaria possível articular a Revolução no Ocidente, na Alemanha, e no Oriente, notadamente na Turquia e na China. Então, a questão de fundo era, dadas as condições para uma revolução proletária, era possível e necessário fazê-la? Sim, e aproveitaram bem o momento, se prepararam para isso, foi um ato consciente, de organização dirigida para ação revolucionária, e chegam ao poder. De um lado, é uma confirmação das teses principais de Marx e Engels de que o proletariado por meio do seu amadurecimento político iria conquistando cada vez mais autonomia e independência no sentido do seu processo histórico e de que a revolução proletária era possível. E, por outro lado, a confirmação dramática de que a transição socialista exige certas condições objetivas, além dessa ousadia política. Somente a ousadia sem as condições materiais cobrou o seu preço histórico. O Estado que dali resultou, ainda que tenha iniciado a transição em vários aspectos, não conseguiu completá-la. Daí resultou um processo de burocratização do Estado, do distanciamento da direção revolucionária da sua própria classe, constituindo uma experiência histórica que, com todo o seu heroísmo, acabou cristalizando-se numa experiência que teve um final dramático.

Conexão UFRJ: Há uma corrente de pensadores que considera não ter mais sentido falar em algumas categorias como proletariado, classes e centralidade do trabalho. Qual a sua opinião sobre isso?

Mauro Iasi: Essa é uma hipótese levantada com bastante ênfase, e não é nova. É alardeada desde meados do século XX. Por exemplo, Hanna Arendt afirma que aquele ciclo aberto pela modernidade centrado no trabalho havia se esgotado. Previu inclusive que as fábricas se esvaziariam. Essa tese é retomada, no final dos anos 1980, por conta do processo de reestruturação do capital, da transição do modelo fordista para o que passou a ser chamado de acumulação flexível. Cria-se, então, uma ofensiva ideológica forte para difundir a ideia de que o trabalho deixou de ser central na sociedade, como também as classes e seus projetos políticos.

Ora, o final do século XX e o início do século XXI parecem dar elementos suficientes para negar essa tese. Temos visto hoje cada vez mais, ainda que de forma diferenciada, na composição e perfil da classe trabalhadora, a permanência de traços centrais dessa sociabilidade capitalista que não foram alterados. Continuamos numa sociedade de mercadorias, e cada vez mais de mercadorias, e numa sociedade em que a principal forma de trabalho ainda é o assalariamento. O que há agora são efeitos devastadores sobre o proletariado e seus processos políticos. A classe trabalhadora se fragmenta como resultado da desconcentração do processo produtivo, e isso tem implicações no processo político. A existência da classe trabalhadora numa situação objetiva em que ela não se vê como uma classe com interesses comuns vai impactar seu comportamento político. Não é de estranhar que a gente viva no início do século XXI uma retomada de projetos conservadores e a crise da democracia representativa burguesa e do ressurgimento de fantasmas que a sociedade pensava ter exorcizado, como o nazifascismo.

Conexão UFRJ: E a atual situação brasileira, não é de conflito entre classes sociais distintas?

Mauro Iasi: Sim, e mostra que não é possível descartar a luta de classes como um conceito com força de compreensão da realidade. O que vemos no país é um conflito de interesses em que as determinações de classe são evidentes. O Estado opera uma contrarreforma que ataca diretamente direitos sociais que já estavam consolidados no ordenamento jurídico, revertendo-os de forma muito dura. E ataca também as organizações da classe trabalhadora, tentado fazer crer que são medidas necessárias, ainda que amargas, em nome de um objetivo maior. Mas cada vez é menos provável que sejam disfarçados em interesses gerais, pois atendem a interesses de uma minoria. E quem é essa minoria, senão os grandes proprietários das corporações, dos monopólios, do grande comércio internacional, das organizações financeiras? Portanto, para quem descartou as classes como conceito explicativo da realidade, agora tem muita dificuldade em entender o que está em jogo hoje no Brasil.

Conexão UFRJ: E o capitalismo, vive hoje de fato uma crise? O modelo de produção e de consumo atual pode de fato ameaçar a sobrevivência da humanidade e do planeta?

Mauro Iasi: Hoje, nós vivemos um paradoxo. O capitalismo, de fato, é atualmente uma força que ameaça diretamente a existência da humanidade. Ele coloca em jogo forças sociais, econômicas e políticas que estão na base do caráter destrutivo desse modo de produção. Talvez o efeito mais evidente e visível seja a crise ambiental. O modelo retira recursos da natureza em velocidade muito superior àquela em que ela pode recompô-los. A verdade é que nunca estivemos tão perto de um desastre ambiental de proporções monumentais.

A forma de produção capitalista se apropria do trabalho humano para produzir valores de troca, mercadorias que têm um potencial sempre crescente de valorização, mas cada vez menor é a satisfação real das necessidades humanas. Então temos, por exemplo, uma enorme capacidade de produzir cereais, grãos, que sustenta o que especialistas chamam de “indústria de imitação de alimentos”. Essa indústria que tem a função de produzi-los, industrializá-los e vendê-los para realizar valor, mas nutre muito pouco, gera mais obesidade do que saúde. Há também meios de locomoção que entopem as nossas cidades de ônibus e automóveis, mas somos obrigados a andar na velocidade média que andavam as carroças no século XIX. Tudo isso mostra um caráter destrutivo do capitalismo. E ele produz barreiras que o levam a entrar em crises cada vez mais devastadoras. Uma delas é crise que vivemos hoje, e que se acentuou de forma dramática a partir de 2008.

Conexão UFRJ: Mas há alternativa?

Mauro Iasi: O paradoxo é que, apesar do caráter destrutivo do capitalismo, ele vem acompanhado de um momento de crise do projeto político que poderia enfrentar o capitalismo como alternativa, que é o socialismo. Só que o socialismo não á apenas o projeto político de uma organização ou de um segmento da sociedade. Ele é uma alternativa que se alimenta e brota da crise do caráter destrutivo do capitalismo.

Conexão UFRJ: É possível vislumbrar uma saída socialista em um mundo no qual o poder do capital sobre a sociedade e o próprio Estado parece ser infinito?

Mauro Iasi: Uma das características da crise dos sistemas políticos fortes ao longo da história, seja na sociedade medieval, no Império Romano, ou na Macedônia, é que eles se julgavam eternos. Sempre chegaram num ponto em que se produzia a imagem de que não existia alternativa, a não ser a sua mera continuidade. O Império Romano, no seu auge, havia dominado praticamente todo o mundo conhecido até então, não existia força capaz de confrontá-lo. Portanto, ele se julgava eterno, mas caiu, desmoronou.

A possibilidade do socialismo está diretamente ligada à impossibilidade de o capitalismo continuar o seu domínio sobre a sociedade de forma inalterada. Essa crise alimenta a possibilidade do socialismo e, mais do que isso, a sua necessidade. Esse socialismo como alternativa ao capitalismo pode assumir várias formas. Não temos nenhuma pretensão de anacronia. Não nos iludimos com a ideia de resgatar o socialismo como aquele sonho que marcou o início do século XX com a Revolução Russa. Ele necessariamente será diferente porque se dá num cenário diferente, e isso é muito bom. Ele se atualiza a partir de uma série de demandas e de um perfil de sociedade muito mais integrada mundialmente.