Sociedade

Para onde vai a política na era das redes sociais?

Marcos Vinicius Lisboa

Imagem de uma mão clicando em um botão sobre o mapa do mundo, representando a interligação do globo por meio da internet
Foto: Pixabay

A internet e as redes sociais chegaram para ficar. É difícil para a maioria das pessoas conceber um mundo hoje sem as facilidades que a rede mundial de computadores proporciona. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2015, com mais da metade da população conectada, o Brasil se depara com as consequências do impacto das redes em todos os setores da sociedade.

De acordo com levantamento divulgado pelo Ibope, no dia 12/6, esses efeitos já estão atingindo a política brasileira. Os dados do estudo mostram que a internet será a principal influenciadora nas eleições presidenciais de 2018. Para 56% dos eleitores, as redes sociais influenciarão em algum grau as decisões de voto. Para 36% deles, as redes terão “muita influência”. Isso significa que a mídia tradicional perde espaço, principalmente entre os jovens – faixa etária em que concorrentes virtuais estão em ascensão.

Esses fatos levantam questões relevantes a respeito do futuro político do Brasil e de outros países, uma vez que o processo está ocorrendo em todo o mundo. Como pensar a democracia em tempos de algoritmos computacionais? As redes sociais são de fato as novas ágoras gregas - espaço de debate público e político? Em que isso interfere no sistema político tradicional?

Internet e mobilizações políticas

Para Giuseppe Cocco, cientista político e professor titular da UFRJ, a internet demonstrou seu caráter democrático desde o princípio. Já em meados dos anos de 1990, movimentos sociais se articularam por intermédio da rede, como a insurreição zapatista, que ocorreu no sul do México em 1994.

Gisseppe Cocco, cientista político e professor titular da UFRJ.
Giuseppe Cocco, cientista político e professor titular da UFRJ. Foto: Diogo Vasconcellos (Coordcom/UFRJ)

Tanto essas mobilizações quanto o próprio fenômeno da globalização foram facilitados pela expansão comunicacional que a internet proporcionou. “Ao mesmo tempo que a internet permitiu que as empresas se deslocassem e se fragmentassem pelo mundo afora, constituíram-se redes de comunicação horizontais que possibilitaram a articulação de movimentos sociais e democráticos”, explicou Cocco, pesquisador do Programa em Ciência de Informação (ECO-Ibict).

Mas a internet é um instrumento e, como tal, pode ser utilizada para diversos fins. Para exemplificar, ele lembrou que muitas das manifestações que ocorreram a partir de junho de 2013 foram coordenadas e alimentadas pelas redes sociais. “A internet, como uma ferramenta democrática, deve apresentar muitas perspectivas. A democracia é a discordância. Mas é necessário ter os instrumentos para lutar e a mobilização acontece hoje entre a rede e a rua”, afirmou o professor.

Os algoritmos das empresas e a democracia

Uma questão importante a ser discutida é a dos algoritmos das redes sociais. Empresas como o Google e o Facebook estão constantemente analisando e processando quantidades maciças de dados dos seus usuários a fim de criar um perfil de navegação para cada um deles. Esse perfil é importante para que os algoritmos possam decidir o que é ou não relevante, ou seja, o que deve ou não ser visto por cada internauta. Dessa forma, formam-se bolhas e nelas só os discursos parecidos com os nossos são ouvidos.

Isso gera uma série de consequências significativas para a democracia. Para Rafael Evangelista, cientista social da Universidade de Campinas (Unicamp) e especialista em tecnologia, esse tipo de algoritmo representa uma ameaça aos preceitos democráticos.

“Os algoritmos formam essas bolhas porque elas interessam em dois pontos. Primeiramente, ajudam o marketing e a venda de objetos segmentados. E, em segundo lugar, dão conforto a quem está na bolha, pois suas opiniões raramente são enfrentadas, o que faz com que as pessoas passem mais tempo ainda na bolha, devotando sua atenção à rede, que é o patrimônio dos donos das redes”, afirmou Rafael.

Segundo o pesquisador, é preciso adotar medidas a fim de reduzir os danos. “A quantidade de conhecimento sobre nós que esses dados carregam é impressionante. Esse conhecimento implica poder. Pode-se, por meio disso, prever e alterar comportamentos. Logo, é preciso haver políticas de controle social e de incentivo a redes de comunicação não sujeitas ao gerenciamento centralizado, monopolístico e empresarial”, defendeu o especialista.

“O Willian Bonner é um algoritmo”

Imagem de duas pessoas com a linguagem binária dos computadores impressa em suas faces. A imagem representa a fusão entre homen e máquina.
Foto: Pixabay

Henrique Antoun, coordenador do Laboratório de Comunicação Distribuída e Transformação Política (Cibercult) da ECO/UFRJ, enxerga a questão de outra forma. Para ele, os algoritmos das redes sociais não representam uma ameaça em si, pois não censuram nada.

“Um algoritmo é um regulador de processos de decisão. Nesse sentido, o Willian Bonner é um algoritmo. Ele decide o que vai mostrar ou não no jornal. A única diferença é que os algoritmos do Facebook são eletrônicos”, afirmou Antoun.

Outro fato importante a ser considerado, segundo o docente, é que, se alguém quiser encontrar um fato que o Bonner decidiu que não mostraria, certamente não o encontrará naquele veículo em que ele trabalha. Os algoritmos das redes sociais não fazem isso. Tudo está lá, basta fazer uma busca simples”, argumentou.

É claro que esses algoritmos são um jogo de poder dessas novas mídias, de acordo com Antoun. Mas isso é consequência da lógica de querer que você permaneça conectado. “Nessa perspectiva, as redes sociais são bem menos invasivas que a mídia de massa tradicional, com a qual, mesmo que você não queira, certamente estará em contato na televisão do restaurante, no rádio do táxi etc”, completou o professor.

Henrique Antoun, coordenador do Laboratório de Comunicação Distribuída e Transformação Política da UFRJ.
Henrique Antoun, coordenador do Laboratório de Comunicação Distribuída e Transformação Política (Cibercult) da ECO/UFRJ. Foto: Compós

A política depois das redes sociais

As consequências do poder que a internet exerce sobre a opinião pública já são visíveis. Alguns partidos já modificaram muitas estratégias de campanha que se tornaram insuficientes com o advento das redes sociais.

“Alguns partidos e grupos têm conseguido tirar melhor vantagem disso, seja usando as ferramentas da internet para impulsionar campanhas baseadas no convencimento tradicional, seja usando de meios mais encobertos e artificiais, como robôs e outros”, destacou Evangelista.

Contudo, segundo ele, o Brasil tem um sistema político frágil e instável, e as redes sociais contribuíram para aumentar sua instabilidade, acelerando processos e colocando-o em um referendo quase permanente. “Só que esse processo ainda é gerenciado da mesma forma por atores poderosos”, completou.

Indo além, Cocco defende que está ocorrendo um enfraquecimento do sistema político partidário devido à crise de representação gerada pela internet.

“O sistema de partidos está enfraquecido. A crise da representação, da qual a internet é um mecanismo fundamental, contudo, não representa o fim do sistema partidário. Mas, uma vez que podemos nos relacionar diretamente pela rede, o aparato de dominação dos partidos começa a funcionar de maneira mais explícita”, argumentou.

A respeito do debate político na era das redes sociais, Evangelista vê com precaução a ideia de que ele tenha sido democratizado de fato.

O professor da Unicamp avalia que dá para dizer que hoje o debate é mais intenso, mas apenas poder falar não necessariamente significa muito. Para ele, a questão é saber se, no campo do debate público, todas essas conversas têm gerado mais entendimento.