Universidade

Cais do Valongo, Patrimônio da Humanidade e da história do Brasil

Marcos Vinicius Lisboa

Imagem colorida do Cais do Valongo que foi o principal porto de entrada de escravos nas Américas.
O Cais é, hoje, um local de celebração da diversidade cultural que a África legou ao Brasil. Foto: Fernando Frazão / Ag. Brasil

No último dia 9/7, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio Histórico da Humanidade. O local foi a principal porta de entrada dos africanos escravizados no Brasil entre o fim do século XVIII e meados do século XIX.

A conquista do título resgata a memória de sofrimento causada pela escravidão, que deixou cicatrizes profundas e presentes até hoje na sociedade brasileira na forma de desigualdades sociais entre brancos e negros. Considerado pela Unesco o mais importante vestígio físico da chegada dos escravizados negros no continente americano, o Cais assume o mesmo patamar de lugares de memória e de sofrimento como Hiroshima e Auschwitz.

A história do Cais

Até meados da década de 1770, os africanos escravizados desembarcavam no Rio de Janeiro, na Praia do Peixe, atual Praça XV, e eram comercializados na Rua Direita, atual 1° de Março. Para as elites, contudo, não era conveniente ver e estar tão perto desses negros que chegavam nus e, muitas vezes, semimortos às terras brasileiras. Em 1774, o Marquês de Lavradio estabeleceu que o porto e o mercado de escravos deveria ser transferido para a região afastada do Valongo, longe dos olhos da aristocracia branca.

Imagem colorida do Afoxé Filhos de Gandhi que canta na celebração do reconhecimento do Cais do Valongo como Patrimônio da Humanidade, em dez de julho.
Afoxé Filhos de Gandhi canta na celebração do reconhecimento do Cais do Valongo como Patrimônio da Humanidade, em 10/7. Foto: Fernando Frazão / Ag. Brasil

O mercado foi prontamente transferido, porém o Cais só foi construído em 1811, após a chegada de D. João. Entre 1811 e 1831, cerca de 800 mil negros escravizados vindos da África desembarcaram no Valongo. Com o fim do tráfico negreiro em 1831, o Cais foi fechado. Mais tarde, em 1843, foi aterrado e um novo ancoradouro foi construído em cima para receber a princesa Teresa Cristina, futura esposa de D. Pedro II. Em 1911, o “Cais da Princesa”, como ficou conhecido, também foi aterrado durante uma reforma urbana.

Em 2011, durante as obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro, as ruínas do Cais da Princesa e do Valongo foram redescobertas uma sobre a outra junto a uma grande quantidade de amuletos e objetos de culto originários do Congo, Angola e Moçambique.

O reconhecimento como Patrimônio da Humanidade

Para o Cais do Valongo ser reconhecido como Patrimônio da Humanidade, uma proposta foi apresentada à Unesco pelo Brasil. Para fundamentá-la, um dossiê técnico foi elaborado, com vários itens devidamente preenchidos, documentados e justificados.

O processo foi encabeçado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), órgão federal ligado ao Ministério da Cultura. Uma equipe técnica então foi convidada para elaborar o dossiê que levaria o Cais do Valongo a obter o status concedido pela Unesco.

Além da equipe técnica, um Conselho Científico avaliava e fazia sugestões à medida que o texto do dossiê era escrito. Esse Conselho foi formado por estudiosos do tema, militantes do movimento negro e ocupantes de cargos na Prefeitura da área de relações internacionais e de órgãos vinculados ao patrimônio e à administração da Zona Portuária.

Imagem colorida de Mônica Lima, professora do Instituto de História da UFRJ.
Mônica Lima, professora do Instituto de História (IH) da UFRJ. Foto: Thomaz Silva

Foram quase três anos de trabalho e debates até o comitê da Unesco aprovar o dossiê e finalmente reconhecer o Cais como Patrimônio da Humanidade.

Mônica Lima, professora do Instituto de História (IH) da UFRJ e membro da equipe técnica convidada pelo Iphan, destacou as dificuldades enfrentadas durante o processo.

 “Primeiramente, o dossiê exigiu um grande esforço de pesquisa, síntese e sistematização. Além disso, foi desafiador lidar com uma história muitas vezes invisibilizada e pouco conhecida da sociedade, que nem sempre se dá conta de sua importância, não só local, mas nacional e internacionalmente falando. Também foi difícil estar diante de um sítio histórico de memória sensível, local de dor, medo e sofrimento de nossos antepassados” afirmou Mônica.

Conquista do título valoriza história do país

Para Tania Andrade Lima, arqueóloga responsável pela redescoberta do Cais do Valongo e professora do Departamento de Antropologia do Museu Nacional/UFRJ, o status concedido pela Unesco resgata a memória do sofrimento vivido pelos africanos escravizados e as origens da cultura brasileira.

O local, segundo ela, não é só a memória do sofrimento. É, sobretudo, um local de celebração da extraordinária diversidade cultural e étnica que a África nos trouxe.

Imagem colorida de Tania Andrade Lima, arqueóloga responsável pela redescoberta do Cais do Valongo e professora do Departamento de Antropologia do Museu Nacional da UFRJ.
Tania Andrade Lima, arqueóloga responsável pela redescoberta do Cais do Valongo e professora do Departamento de Antropologia do Museu Nacional/UFRJ. Foto: Raphael Pizzino (CoordCOM / UFRJ)

“Nós somos o povo que somos hoje por conta dos africanos que aqui chegaram e que nos deram sua imensa força de trabalho que alavancou essa nação. Eles nos ensinaram a ter essa imensa capacidade de resistir, uma grande lição para nós, ainda mais no momento em que vive o Brasil. Eles nos ensinaram a viver na adversidade. Devemos nossa cultura a eles”, enfatizou Tania.

A professora Mônica Lima também acredita no resgate histórico do passado escravista do país para a compreensão da identidade brasileira.

“Trata-se do resgate de nossa história negra, de nossa identidade como brasileiros que somos, majoritariamente afrodescendentes. Trata-se da reparação pelo silêncio e pela negação dessa história, por tantos e tantos anos. Trata-se de entender que esse cais nos conecta à África, às Américas e ao mundo, mas sobretudo a nós mesmos como nação”, concluiu a historiadora.