Cultura

O que está por trás da censura à arte no Brasil

Coryntho Baldez

Pintura artística em muro de rua de menino com mordaça
Ilustração: Pixabay

A arte é a mais recente vítima da onda de intolerância que corrói o país. Tudo começou com o cancelamento da exposição Queermuseu Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, no Santander Cultural, em Porto Alegre, no dia 10/9. Com foco temático em diversidade sexual, a mostra reunia 270 trabalhos de 85 artistas e foi suspensa após protestos nas redes sociais liderados pelo Movimento Brasil Livre (MBL). A queixa era de que as obras, assinadas por nomes consagrados como Adriana Varejão, Cândido Portinari e Lygia Clark, faziam apologia à pedofilia e à zoofilia. Uma tentativa do Museu de Arte do Rio (MAR) de trazer a mostra para a cidade foi desautorizada pelo prefeito Marcelo Crivella.

Dois episódios posteriores confirmam que a livre expressão artística virou alvo preferencial de ataques dos ultraconservadores, cujas demandas vêm encontrando acolhida no aparato jurídico-policial. Em Campo Grande (MT), a polícia apreendeu uma tela exposta no Museu de Arte Contemporânea do Mato Grosso do Sul, sob a mesma acusação de apologia à pedofilia. E um juiz proibiu a peça Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, minutos antes da estreia, no Sesc Jundiaí, em São Paulo, em 15/9 – posteriormente, a exibição foi liberada pela Justiça em Porto Alegre.

Retrocesso atual lembra ditadura militar

Essas ações, segundo especialistas, configuram um cerco sem precedentes à liberdade de expressão e à arte desde o fim da ditadura militar. Carla Costa Dias, professora da Escola de Belas Artes (EBA) da UFRJ, considera o cenário muito preocupante.

“Estamos vivendo um período de retrocesso. Temos visto um movimento de direita crescente. O MBL é financiado por corporações exatamente para impor uma pauta ampla de cerceamento dos movimentos sociais. Esse mesmo grupo faz a apologia do que chamo de ‘Escola Com Censura’, que busca limitar a ação dos professores e o pensamento”, critica.

Imagem colorida de Felipe Scovino, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFRJ e de Carla Costa Dias, professora da Escola de Belas Artes da UFRJ.
Felipe Scovino, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFRJ e Carla Costa Dias, professora da Escola de Belas Artes da UFRJ. Foto: Diogo Vasconcellos (CoordCOM / UFRJ)

Ela ressalta que, no momento, o alvo maior dos ataques é a expressão artística que retrata a diversidade sexual. Segundo Carla, a leitura que esses grupos fazem das obras é completamente equivocada, mas o fato de a exposição abordar o tema abertamente e sem preconceitos incitou o ódio daqueles que promovem a LGBTfobia. “Na internet, esses grupos de direita são muito ativos e chegam a falar em um complô para impor uma pauta”, afirma.

Felipe Scovino, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da EBA/UFRJ, lembra que o Brasil tem um histórico preocupante de exposições fechadas e de peças teatrais e músicas censuradas, especialmente no período da ditadura militar.

“É terrível a gente voltar a conviver com esse tipo de ação de censura no tempo presente, sob alegações sem a menor razoabilidade”, frisa.

De acordo com Scovino, os agrupamentos ideológicos de extrema direita impõem uma espécie de modelo do ser humano: branco, católico e heterossexual.  Qualquer expressão artística diferente causa um atrito entre o padrão estereotipado das relações humanas idealizado por esses grupos e a realidade como ela é. “Eles querem implementar quase um modelo fascista de mundo”, afirma.

Política cultural nas mãos das empresas

No caso particular da exposição Queermuseu, chamou a atenção de Scovino – que leciona Arte Contemporânea e Curadoria – a nota oficial do Santander, que classificou como clientes aqueles que foram impedidos de ver a mostra, e não de público ou espectadores.

 “Isso diz muito a respeito de como a cultura brasileira tem se aproximado de instituições financeiras, de grandes empresas do ramo de telefonia, que têm muito mais interesse em vincular a marca da empresa a possíveis clientes do que exatamente expor a diversidade que a arte e a cultura podem trazer como forma de debate”, sustenta.

Imagem colorida da obra de Thiago Martins, que fazia parte da exposição Queermuseu.
Obra de Thiago Martins, que fazia parte da exposição Queermuseu. (Reprodução)

Carla Dias concorda que o Estado está cada vez mais ausente da formulação de uma política cultural: “Na verdade, é importante reforçar que quem hoje é responsável por ela no Brasil é o setor privado. Portanto, não há uma política ampla, de fato, já que a Lei Rouanet não preenche essa função, nem se coloca como tal”.

Professora de Arte Africana, ela teme que a censura à diversidade sexual nas artes se estenda a outras áreas. “As disciplinas de Arte e Gênero e Arte Africana no nosso curso foram um avanço. Ou seja, estamos tentando abrir espaço para expressões artísticas diversas. Está havendo perseguição à arte, mas também aos terreiros. É um mesmo pacote de ações que representa uma ameaça grande à liberdade de expressão artística e religiosa”, denuncia.

A arte degenerada na Alemanha de Hitler

Os ataques intolerantes contra a arte no Brasil lembram, de algum modo, as ações do regime nazista, que chegou a organizar uma exposição em que classificava a arte moderna como “degenerada”.

Essa mostra, segundo Scovino, aconteceu num momento em que o nacional-socialismo estava em ascensão na Alemanha e Adolf Hitler chegou ao poder. Os artistas exploravam, pela primeira vez, o abstracionismo, na contramão de uma representação natural do mundo e das coisas, como desejava o regime. “Mas eram essencialmente de ascendência judaica e possuíam identidades que confrontavam as ideias do nazismo para uma nova Alemanha”, destaca.

Imagem colorida da obra de MILTON-KURTZ.
Obra de Milton Kurtz. Foto: divulgação

No caso da exposição em Porto Alegre, segundo ele, o que estava em foco era a discussão da diferença, da alteridade. “É preciso perceber que o mundo não se estabelece apenas a partir de uma visão ideológica e falsa de que as pessoas devem ser como o outro quer que elas sejam”, reforça.

Carla ressalta que não dá para colocar a atual situação como se fosse exatamente igual à época do nazismo. Mas diz que realmente existe uma questão racial por trás dessas ações.

Para a professora, quando não se quer discutir as diferenças de gênero ou raça  numa exposição artística, se está dizendo que tais questões não devem entrar na pauta de debates do país.

“Acaba-se endossando, assim, a violência às pessoas que possuem outras formas de pensar e de se expressar. Então, na verdade, não é somente a arte que está sendo atacada. É todo um pensamento que questiona a visão tradicional e conservadora da família e da religião”, completa.